Doenças associadas

Bronquiectasias

Tratam-se de dilatações e distorções nos brônquios que deixam de ter uma forma em tubo e passam a terminar em forma de balão ou apresentam outras formas anormais, o que vai alterar o modo como funcionam.

Existem várias causas possíveis para este problema, mas isto acontece frequentemente após infeções nas vias aéreas inferiores ou por razões ainda desconhecidas. A associação entre a DPOC e as Bronquiectasias reside no facto de que muitos destes processos infeciosos decorrem do acumular de secreções nos brônquios, cuja resposta do organismo irá provocar a destruição das vias aéreas.

Comparando as duas doenças, em termos de sintomas, elas são muito parecidas, compartilhando queixas como o aumento da tosse e da expetoração habituais, com referência a episódios frequentes e incomodativos de infeção respiratória. É importante vigiar a cor das secreções expelidas quando tosse – se ficarem amarelas ou esverdeadas, deve procurar o seu médico, pois pode tratar-se de uma infeção. Por vezes pode ter sangue misturado com a expectoração.

Atualmente a embolização angiográfica ou a cirurgia são o principal tratamento quando a doença provoca muitos sintomas. Noutras pessoas, não há qualquer motivo para se intervir, ficando em vigilância.

O problema das bronquiectasias na DPOC é que estes doentes costumam apresentar exacerbações mais frequentes e com maior gravidade, necessitando de uma maior vigilância. Relativamente ao tratamento da DPOC nestas pessoas, a principal “diferença” é um maior foco na antibioterapia e uma maior ponderação no uso de corticoides, tendo em conta o risco de diminuição da imunidade. A sua remoção cirúrgica é usada muito raramente e só está indicada em situações em que a doença é localizada e que provoca muitos sintomas.

.

Cancro do Pulmão

Esta é a doença oncológica que mais mortes provoca em todo o mundo e tem um impacto muito forte nos doentes e nas suas famílias. Infelizmente, muitas pessoas não têm noção de que pode haver um elo entre este tumor e a DPOC. Aliás, estima-se que metade dos novos diagnósticos de Cancro do Pulmão por ano são em doentes que também têm DPOC. E todos os estudos apontam para uma prevalência superior deste cancro nestes doentes, comparativamente com fumadores sem DPOC ou com a população em geral.

A relação entre estas doenças é tão intima que a neoplasia pulmonar é a causa mais frequente de mortalidade em doentes com DPOC mais ligeira. A DPOC é também o maior fator de risco individual para a carcinogénese (que significa a formação de um tumor) e um fator de mau prognóstico nesses doentes.

É inegável a associação entre ambas, mas o motivo e a extensão desta ligação é ainda alvo de estudo e investigação. As duas doenças têm uma forte ligação com o tabaco, apesar de este não ser o único motivo para esta relação; alguns autores referem ainda que os genes podem tem um papel ou que o estado inflamatório crónico da DPOC possa também estar implicado no desenvolvimento das células tumorais.

Infelizmente os sintomas são muito parecidos e podem provocar alguma confusão, dificultando e atrasando o diagnóstico correto. Quer uma, quer outra, podem provocar falta de ar, tosse ou levar a infeções respiratórias de repetição. Mesmo o emagrecimento, perda de apetite, ou a perda de sangue na expetoração, que poderiam levar a pensar mais na hipótese de neoplasia, também ocorrem com alguma frequência na DPOC.

Não existe atualmente um rastreio de Cancro do Pulmão em doentes com DPOC, tal como se fazem mamografias para o Cancro da Mama ou colonoscopias para o Cancro do Intestino. Está ainda em estudo a vantagem em realizar TAC Tórax de rotina em doentes em risco de Cancro do Pulmão.

.

Anemia

O transporte do oxigénio no sangue é efetuado por uma proteína, a hemoglobina, que está dentro dos glóbulos vermelhos, também chamados de eritrócitos. Normalmente, em situações de baixo nível de oxigénio no sangue, o que acontece é que o seu organismo tenta compensar esta deficiência com um aumento da produção de uma substância – a Eritropoietina – no rim. Esta irá estimular a produção de glóbulos vermelhos, conduzindo indiretamente a uma subida dos níveis de hemoglobina e consequentemente da capacidade de transporte de oxigénio para os órgãos. E é por esta razão que a hemoglobina costuma estar muito aumentada em pessoas com DPOC, por vezes levando a complicações como o aumento da viscosidade do sangue.

Alguns estudos revelaram uns resultados um pouco estranhos e os investigadores repararam que existia uma frequência mais elevada de anemia nesta população. Ora, ao invés de ter hemoglobina a mais tinham a menos? Este problema espantou muitos entendidos, que não entendiam porque isto acontecia.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, a Anemia é definida pela presença de uma concentração de hemoglobina < 12g/dL na mulher e < 13g/dL no homem. A prevalência de Anemia aumenta com a idade e como a população afetada pela DPOC é tendencialmente mais envelhecida fica difícil perceber se a diminuição dos níveis de hemoglobina é consequência do envelhecimento ou pela doença respiratória.

.

O que pode provocar então a Anemia?

Existem vários fatores que podem ser responsáveis pelo desenvolvimento da Anemia: a coexistência de outras doenças crónicas pode estar por detrás desta alteração; a presença de uma hemorragia oculta é outra possível explicação; certos medicamentos (como alguns fármacos para diminuir a tensão arterial) foram associados a anemia, entre outras.

As queixas entre estas duas situações podem ser muito difíceis de destrincar. A Anemia por si só pode ser inclusive a responsável pela sensação de falta de ar e de cansaço, provocando um impacto negativo no estado geral da pessoa, aumentando o esforço respiratório necessário para respirar ou realizar qualquer outra atividade, estando por isso associada a uma pior qualidade de vida.

A Anemia no contexto da DPOC tem realmente vindo a ser associada com um pior prognóstico, pelo que é importante que seja vigiada e se possível corrigida. Em contexto hospitalar, pode ser necessário que faça uma transfusão, se os valores de hemoglobina sejam muito baixos. Dependendo da causa por detrás da anemia, pode ser importante fazer suplementação nutritiva com vitaminas.

.

Perda de peso e muscular

Uma grande parte dos doentes com DPOC notam uma capacidade cada vez menor para realizar esforços ou fazer exercício físico, com agravamento dessas queixas a cada consulta que passa.

Quando existe um comprometimento da parte física, o que chamamos de disfunção musculoesquelética, estas pessoas apresentam uma pior qualidade de vida. À medida que as semanas passam vai ter menos vontade de se esforçar, inclusive com atividades ligeiras como o caminhar. O resultado é que passa a evitar sair de casa e acaba por ficar mais isolado. Gradualmente, o seu corpo vai deixar de ter uma condição física satisfatória, tolerando cada vez menos esforços, e como está sempre em casa, fala menos com os seus amigos ou familiares, pelo que fica triste, deprimido e sozinho.

A razão para esta fraqueza muscular em doentes com DPOC ainda não está completamente esclarecida, mas acredita-se que está relacionada com os baixos níveis de oxigénio no sangue, com défices na alimentação (outra fonte de energia), o próprio sedentarismo ou por alterações celulares musculares devido ao estado inflamatório da DPOC.

O ideal é tentar manter um nível mínimo e razoável de exercício físico regular, comer de forma adequada e equilibrada, cumprir o tratamento com oxigénio em casa, se for caso disso, e não perder o contacto com os seus familiares. O controlo de um doente com DPOC não é apenas com medicamentos, como iremos ver mais adiante, mas depende de um conjunto de medidas que tentam melhorar a sua qualidade de vida em várias frentes.

E sobre o peso?

Relativamente ao peso, e apesar de que muitos doentes com DPOC têm excesso de peso, um dos principais fatores de mau prognóstico na evolução desta doença pulmonar é a magreza excessiva.

Sabemos que muitas pessoas com DPOC perdem peso com a evolução da doença, seja pelo metabolismo aumentado ou por uma menor ingestão de alimentos, principalmente se a pessoa tiver que cozinhar para si mesma.

.

Doenças Cardiovasculares

As doenças vasculares, como o AVC (acidente vascular cerebral) e o Enfarte Agudo do Miocárdio, são a principal causa de morte em Portugal. A associação entra a DPOC e estas doenças tem vindo a ganhar atenção e é cada vez mais estudada, uma vez que os primeiros poderão desenvolver complicações cardiovasculares, algumas com bastante gravidade.

É o coração que vai bombear o sangue rico em oxigénio que vem dos pulmões para todos os órgãos do corpo. Como na DPOC pode existir alguma alteração na oxigenação, principalmente nos graus mais avançados da doença. existe um esforço extra por parte do seu coração para tentar compensar essa deficiência. Quando existe uma necessidade prolongada deste trabalho extra começam a surgir alterações nos vasos (principalmente nas artérias) e no próprio coração, que alteram toda esta dinâmica, deixando de conseguir sustentar toda esta operação muito complexa.

Na verdade, as doenças vasculares partilham muitos dos fatores de risco com a DPOC, nomeadamente o tabagismo, a idade mais tardia, são mais frequentes no género masculino e têm uma relação importante com o sedentarismo.

Para além dessa explicação, a DPOC por si só pode levar a um risco acrescido de doença vascular, quer pelo estado inflamatório, quer pelo Enfisema e a hiperinsuflação pulmonar, que dificultam o enchimento do ventrículo esquerdo, e assim o coração não consegue expulsar o sangue completamente. Isto potencia o aparecimento de hipertensão pulmonar (elevação da tensão arterial dos vasos pulmonares), resultando em insuficiência cardíaca direita. A inflamação pulmonar crónica contribui para o desenvolvimento de placas de aterosclerose e uma simples exacerbação pode ser o suficiente para causar a rutura destas placas e poder levar ao AVC ou ao enfarte do miocárdio.

.

Osteoporose 

A Osteoporose é uma doença caracterizada por uma baixa renovação e/ou rápida destruição do osso, ou seja, forma-se pouco e / ou perde-se mais material ósseo, resultando num esqueleto constituído por elementos pouco densos e frágeis. Isto acontece por uma diminuição na qualidade do tecido que os forma, tanto a nível do material proteico como dos sais minerais de cálcio.

A doença pode aparecer por vários motivos: desde o desenvolvimento de défices vitamínicos por má ingestão, alterações do metabolismo basal ou por uma outra doença crónica, que provoque diminuição da absorção ou consumo dessas substâncias. Na maioria dos casos, a Osteoporose progride devagar e raramente apresenta sintomas antes que aconteçam as fracturas, sejam espontâneas ou após um traumatismo. O seu diagnóstico envolve a determinação da Densidade óssea mineral, medindo-se a quantidade de mineral existente numa determinada área de osso. Para isso são necessários realizar alguns exames específicos, não podendo ser o diagnóstico ser feito com clareza através de radiografias simples.

A Osteoporose tem uma implantação mais expressiva em doentes com DPOC do que na população geral, e isto deve-se principalmente à associação desta doença respiratória com o tabagismo e à utilização, muitas vezes frequente, de corticóides orais ou mesmo inalados (esta relação é mais controversa) no seu tratamento de alívio ou manutenção. Para além da obesidade e de outros efeitos, o uso de medicamentos com corticosteroides foi associado a alterações na renovação do tecido ósseo, principalmente pela destruição das células responsáveis pela produção óssea. .

.

Diabetes

Um doente com DPOC tem sensivelmente o dobro da probabilidade de ter Diabetes comparativamente a uma pessoa sem esta doença respiratória obstrutiva.

Trata-se de uma condição caracterizada pela elevação da glicose (conhecido por muitas pessoas como “açúcar”) no sangue. Normalmente, é resultado de uma diminuição da secreção ou na ação da insulina, uma hormona produzida no pâncreas, nomeadamente pelas suas células beta. A função principal da insulina é a de promover a entrada de glicose para as células do organismo de forma que ela possa ser aproveitada para as diversas atividades. O problema na diabetes é que pode existir menos insulina ou uma maior resistência do organismo à sua ação e então a glicose fica em circulação sem ser absorvida.

A expansão inflamatória da DPOC é uma das principais responsáveis pela ligação entre estas duas doenças, pois existem relatos de o grau inflamatório que condiciona ainda uma maior resistência à ação da hormona insulina, resultando em hiperglicemia (níveis elevados de glicose).

Por outro lado, o efeito da diabetes nos doentes com DPOC também não é de menosprezar. Existem relatos de que as pessoas com estas duas doenças costumam ter um maior número de infeções respiratórias e mais exacerbações, para além de internamentos mais longos e difíceis. Também se constatou que a função pulmonar agravou mais nestes doentes.

Não é possível excluir o papel que o tratamento com os corticosteroides possa ter na descompensação desta doença metabólica. Quando toma um comprimido deste medicamente, existe uma maior libertação de glicose pelo fígado, mas a absorção pode não acompanhar essa mudança. Como consequência, o sangue está mais carregado com glicose o que pode trazer alguns inconvenientes: uma pessoa sente uma sede intensa e bebendo muita água, cansaço, sensação de boca seca ou mesmo alterações na visão, que parece turva ou enovoada.

.

Depressão e Ansiedade

A Ansiedade e a Depressão contribuem substancialmente para a diminuição da qualidade de vida provocada por esta doença respiratória, nomeadamente, prejudicando a vida social e pessoal, incluindo a vida sexual, e reduzindo a adesão ao tratamento. O estado emocional e psicológico é importante para todas as pessoas e qualquer fator que o destabilize tem consequências dramáticas na qualidade de vida.

As queixas típicas da Depressão são bastante conhecidas. Para começar, uma sensação de irritabilidade ou de tristeza, muitas vezes sem qualquer razão aparente para esses sentimentos. É comum que os seus amigos lhe perguntem, “mas o que te deu? Estás a chorar porquê?”. Esta irritabilidade induz um estado choroso ao mínimo estimulo, provavelmente por estar mais sensível.

Os sintomas e as complicações provocadas pela DPOC podem levar a que sinta sentimentos de perda, frustração ou tristeza, porque já não consegue fazer as coisas que costumava fazer. Para piorar a situação, muitas pessoas com DPOC também têm um sono de fraca qualidade, dormindo menos horas ou acordando várias vezes durante a noite, não permitindo que o cérebro recupere adequadamente. Isto contribui para descompensar o quadro depressivo e originar ainda mais ansiedade.

Já não bastava todos os problemas que a DPOC provoca e os médicos estimam que o risco de desenvolvimento de Depressão nestes doentes seja quase 2 vezes superior ao risco nas outras pessoas. Este risco é maior ainda em doentes com DPOC mais grave. Os doentes jovens, as mulheres, os fumadores, e os com pior função pulmonar ou com história de doença cardiovascular, são os que estão em maior risco, porque a maioria destes fatores está associado a um grau da doença mais grave e por isso mais limitante.

O diagnóstico precoce destas doenças e o desenvolvimento de estratégias para o seu tratamento adequado são essenciais para melhorar a qualidade de vida destes doentes e reduzir a necessidade de ida aos centros de saúde e hospitais. É difícil dizer se as queixas são decorrentes da DPOC ou se a pessoa está deprimida por outro motivo. Para isso, é importante que a pessoa seja observada por um médico Psiquiatra.

O tratamento com medicação antidepressiva na DPOC não está ainda bem estudado. No entanto, e sempre sob vigilância médica, pode ser instituída alguma medicação especifica com vista a melhorar o seu humor e a afastar esses pensamentos negativos da sua cabeça. Existem alguns resultados promissores sobre a Reabilitação Pulmonar, terapia psicológica, entre outros, nestes doentes, pelo que em certos casos podem ser uma opção. A psicoterapia individual e a terapia de grupo podem ajudar o doente a aprender a lidar com a sua doença e na adaptação a uma nova realidade.

.

Alterações no sono

O organismo humano está programado para fornecer estímulos contínuos para a respiração, mesmo quando está a descansar. No entanto, ocorrem algumas modificações fisiológicas quando dorme que tornam a respiração durante o sono um pouco diferente de quando está acordado. Para começar, existe uma perda do controlo consciente da ventilação e verifica-se também uma diminuição da força e atividade dos músculos que mantém a estrutura e posição normal do pescoço, bem como da sensibilidade de algumas células para controlar e atuar em caso de alterações na concentração de oxigénio e dióxido de carbono no sangue. Em muitas pessoas, o sono não causa nenhum problema assinalável e pode viver a sua vida sem dificuldades, mas em doentes com DPOC a suscetibilidade para complicações é maior e podem surgir alguns efeitos indesejáveis. Isto ocorre, pois, estas adaptações noturnas facilitam a ocorrência de apneias, ou seja, de paragens na respiração.

A própria DPOC pode provocar alterações respiratórias durante o período noturno, apesar de possivelmente nem dar por isso. Nas pessoas com DPOC pode ocorrer uma diminuição do teor de Oxigénio e uma elevação do teor de Dióxido de Carbono no sangue durante o sono, mais especificamente na fase do movimento rápido dos olhos (o chamado sono REM, que é a fase do sono onde sonha e tem pesadelos).

.

A qualidade do sono na DPOC 

As pessoas com DPOC têm uma maior prevalência de insónia, pesadelos e de sonolência excessiva diurna comparativamente com a população em geral, estimando-se que cerca de 50% destes doentes apresentem estas queixas.

Alguns estudos demonstraram que os doentes com DPOC acordavam mais vezes durante a noite. Uma pessoa que tem um sono fragmentado quer dizer que acorda e adormece várias vezes durante a noite, prejudicando o repouso e o recarregar das baterias. Também se verificou uma diminuição na extensão da fase do sono REM. Vários autores referem que alterações nesta fase estão associadas a problemas psiquiátricos ou emocionais, entre outros.

Existem dados na literatura científica que demonstram que a diminuição na saturação de Oxigénio à noite contribui para uma maior taxa de mortalidade, particularmente durante as exacerbações agudas da DPOC. Dois estudos demonstraram ainda uma relação entre a diminuição da saturação de oxigénio noturna e a menor sobrevivência a longo prazo, e outros revelaram que os doentes hospitalizados com exacerbações graves têm maior probabilidade de falecer durante a noite, principalmente os que apresentarem valores aumentados de Dióxido de Carbono no sangue. Por isso, não se deve subestimar a influência de uma noite bem dormida no controlo da sua doença. É mais importante do que possa pensar.