A DPOC em Portugal

Tal como acontece no resto do mundo, em Portugal não temos uma fotografia bem nítida da realidade da DPOC na nossa população. Quantas pessoas têm a doença? Quem são os doentes? Em que trabalham essas pessoas? E fumam? Vivem no litoral ou no interior? Ainda não sabemos bem e por isso não conseguimos responder a essas pessoas nem perceber qual o verdadeiro impacto da doença no nosso país.

Uma das principais razões para isto acontecer é ainda existir alguma dificuldade de acesso fácil das pessoas aos meios de diagnóstico necessários e o ainda pouco conhecimento sobre a doença – faça um teste, pergunte aos seus amigos se sabem o que é a DPOC. Na minha opinião, isto deve-se em parte ao pouco impacto mediático da DPOC, comparativamente a outras doenças, como a Diabetes ou as relacionadas com o coração. Apesar de ainda ténue, sinto que já existe uma mudança e a sensação de que é necessário dar mais atenção à DPOC, pelo que o futuro poderá trazer melhorias notórias nesse sentido. Recentemente assistimos a noticias sobre o impacto positivo da telemonitorização de pessoas com a doença e as novas diretivas do Ministério da Saúde para agilizar o acesso a uma espirometria são um passo importante para que todas as pessoas com DPOC sejam identificadas. Algumas estatísticas referem que existirão cerca de 700 a 800 mil portugueses com a doença. E a maior parte deles não sabe que a tem!

Para explicar melhor e resumir o que sabemos da presença da DPOC em Portugal pedi ao Dr. Dinarte Viveiros, especialista em Saúde Pública, uma pequena abordagem a este tema.

Os internamentos por DPOC correspondem realmente a um dos principais motivos de hospitalização por parte dos portugueses. A Direção Geral de Saúde (DGS), através do Programa Nacional para as Doenças Respiratórias (PNDR), analisou a evolução da Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica (DPOC) ao longo da última década nos internamentos hospitalares e foi possível concluir que os casos de pessoas com diagnóstico principal de DPOC têm aumentado de forma regular ao longo destes anos. Isto pode querer dizer duas coisas: ou o número de doentes está a aumentar, ou então, os casos de exacerbação ou agravamento são maiores e mais graves, motivando o internamento.

Ora, uma boa notícia é o facto de que a média de internamentos por cada 100 mil/habitantes é inferior à média europeia. E em 90% dos casos os doentes tiveram alta para casa após 9 dias de internamento. Esses internamentos ocorrem principalmente no Inverno, entre Dezembro e Março, o que pode ser explicado com a associação do agravamento desta doença com o maior pico de infeções respiratórias.

Não existem números oficiais sobre quantas pessoas residentes em Portugal têm DPOC, no entanto, num estudo realizado na região de Lisboa, a doença foi encontrada em aproximadamente 14% dos adultos com 40 ou mais anos. Mas gostava que ficasse com a ideia que os números reais deverão ser um pouco superiores. Também se verificou que mais de 60% dos doentes com diagnóstico confirmado eram do sexo masculino, já no Alentejo e no Algarve esta percentagem ultrapassava os 70%. Os últimos dados internacionais apontam para que estejamos a caminhar para uma igualdade entre os sexos, pelo que é expectável que num próximo estudo alargado estas percentagens sejam menores.

Relativamente à idade média, em Portugal anda à volta dos 74 anos, estando a par do que acontece no resto da Europa. Resta acrescentar que a DPOC, como doença crónica que é, por definição aumenta a sua prevalência com o aumento da idade e segundo dados de 2014 na população com 65 ou mais anos em Portugal estava presente em 20,2% das pessoas. Há medida que a esperança média de vida aumenta é possível que o número global de doentes também vá crescer.

Devido ao apoio do Sistema Nacional de Saúde as pessoas que têm necessidade de tratamento com oxigénio ou um ventilador prescrito pelo serviço público não pagam nada. Isto não é verdade na maioria dos países do mundo, por isso gostava que esta informação motivasse todos os doentes para aproveitar e não desperdiçar esta facilidade. Não há razão para não cumprir estes tratamentos conforme o seu médico lhe indicar.

Infelizmente, temos muita dificuldade em conseguir que os nossos doentes sejam inseridos na Reabilitação Respiratória. Estima-se que apenas 1% das pessoas que necessitam estão ou já fizeram parte de um plano de Reabilitação com exercício. Muitos poucos hospitais oferecem esta valência e onde existe raramente existe capacidade suficiente para abarcar todos os que beneficiam dela. A oferta na Medicina Privativa é muito limitada, em parte devido aos custos elevados em compor um plano completo, no entanto cada vez mais é coberto pelas empresas de seguros. Discutiremos mais tarde alguns dos locais onde pode encontrar Reabilitação Respiratória em Portugal.