A opinião do especialista – O choque pulmonar

especialista pneumo

Recentemente li uma opinião de um dos maiores especialistas em medicina respiratório sobre a escolha do nome desta doença que bem conhecemos – a DPOC. Segundo o Prof. Felix Herth, se tivesse sido escolhido um nome mais impactante para esta doença, talvez fosse mais respeitada pelos doentes e bastante mais divulgada. A maioria das pessoas, incluindo quem sofre com e devido a ela, nem sabe dizer o que significa cada letra da sigla DPOC.

Isto acontece-me frequentemente na consulta ou na urgência, inclusive em pessoas já veteranas em idas ao meu gabinete. Admitamos, não é um nome fácil de decorar ou que transmita qualquer sensação.

Tal como alguns estudiosos referem, os outros médicos, desde cardiologistas a endocrinologistas, inventaram para as suas doenças nomes pomposos e que metem respeito aos doentes, o que faz com que estes dêem mais valor à sua doença. Ao mesmo tempo, são mais reconhecidas pela sociedade e pelos media, que lhes dá mais atenção e tempo de antena. Isto é útil, porque permite melhorar o conhecimento da população sobre a doença mas também indiretamente afeta o investimento de entidades públicas e privadas no universo geral da doença. Por exemplo, se existe grande visibilidade na área da diabetes, será aí que as fundações investirão mais, nomeadamente em projetos de apoio a doentes. Só para citar um exemplo.

pulmões

Mas há um outro ponto importante, quiçá o mais relevante. A maioria das pessoas têm medo de ter um AVC, agravamento da diabetes ou um enfarte, não da DPOC. O que é isso? – pergunta a maioria. Sorrateiramente, a DPOC é nem mais nem menos do que a 3ª causa de morte a nível mundial e uma das principais também em Portugal. Não deixa de ser estranho que quando se assinala o seu dia mundial – em Novembro – este passe quase sem qualquer referência a nível mediático. Por comparação, dias antes celebra-se o dia mundial da diabetes e a diferença é abismal.

Existe uma falha de comunicação notória na exposição pública da gravidade desta doença. E nesse campos somos todos culpados, incluindo os médicos. Desse modo, continuarão a existir mais e mais doentes, com agravamentos cada vez mais severos e contínuos da função respiratória e, infelizmente, mais mortes diretamente relacionadas com a DPOC.

Talvez esteja na altura de seguir o que recomenda o Prof. Felix Herth, na edição deste mês da Respiration: se começarmos a explicar que o agravamento da DPOC é um Choque Pulmonar, porventura a doença será mais considera e levada a sério. E os principais beneficiários serão os próprios doentes.

João Cravo

Médico Pneumologista no CH Baixo-Vouga

Coordenador DPOC.PT