Acabe com o tabaco

A Cessação tabágica

 

Se tem DPOC é muito provável que ainda fume ou já tenha fumado alguma vez na vida, e por isso largar o cigarro é o primeiro e o principal mau hábito a eliminar do seu dia-a-dia. Não perca tempo, deixar de fumar é fundamental .

No doente com DPOC a Cessação Tabágica é a intervenção que tem maior capacidade de poder alterar o curso natural da doença, impedindo que agrave ainda mais e altere de forma definitiva a sua vida. O tabaco é efetivamente um dos principais fatores de risco para o aparecimento e progressão da doença e este risco é diretamente proporcional ao número de cigarros que fuma por dia, ou seja, quanto mais cigarros consumir maior é o efeito negativo e a sua influência no desenvolvimento da doença. Portanto, ao não fumar, ou se deixar de o fazer, está a proteger os seus pulmões, a ganhar qualidade de vida e a poupar bastante dinheiro. Já imaginou as férias que podia fazer com o dinheiro poupado ao fim de um ano sem fumar? Faça as contas e espante-se, são pelo menos várias centenas de euros!

As pessoas que estão motivadas para abandonar o tabaco e que manifestem esta vontade podem ser direcionadas para uma consulta de Cessação Tabágica, já presente em muitos Hospitais e Centros de Saúde. Aqui encontrará médicos e outros profissionais de saúde com formação específica sobre como ajudar as pessoas que querem deixar de fumar.

A intervenção dos profissionais de saúde é uma ajuda preciosa, no entanto, para que haja sucesso é fundamental haver motivação por parte do fumador. As consultas especializadas são constituídas por uma equipa multidisciplinar composta por médico, psicólogo, nutricionista e enfermeiro. Só desta forma se consegue elaborar um plano individualizado, intensivo e prolongado no tempo, capaz de responder a todas as questões/problemas que surgem no caminho percorrido durante o processo de cessação. Sabemos que é uma batalha difícil, mas com um bom apoio é possível superar este desafio. O tratamento dirigido aumenta substancialmente o sucesso da cessação e é, entre todas as medidas preventivas possíveis, a intervenção que apresenta melhor relação custo-benefício.

Vamos começar por explicar-lhe as principais vantagens de deixar de fumar para qualquer pessoa, independentemente de terem DPOC ou não. Nos primeiros 20 minutos após o último cigarro já se verifica uma diminuição da pressão arterial. Também o valor de monóxido de carbono baixa em poucas horas e isto tem um efeito positivo no valor do oxigénio no sangue. Estima-se que precisa de 2 dias para deixar de ter qualquer traço de nicotina no corpo, por isso, o risco de doença cardíaca e cardiovascular já é bem menor ao fim de um par de dias sem fumar. À medida que as semanas passam estes benefícios vão sendo cada vez mais evidentes. Os estudos apontam para uma diminuição para metade do risco de ataque cardíaco após um ano sem fumar. Após 15 anos sem fumar, esse risco é aproximado (mas não é igual) ao de uma pessoa não fumadora.

A função pulmonar também beneficia com esta alteração de hábitos. Alguns sintomas, como a tosse, falta de ar ou pieira, podem ser menos intensos e mais fáceis de controlar. O risco de cancro do pulmão diminui, tornando-se próximo de um não fumador ao fim de 10 anos sem fumar.

Alguns dos benefícios conhecidos de parar de fumar em doentes com DPOC são:

  • Previne a progressão da doença.
  • Alivia as queixas/sintomas.
  • Aumenta a tolerância ao exercício.
  • Melhora a funcionalidade e a qualidade de vida.
  • Previne as exacerbações.
  • Previne as complicações.
  • Reduz a mortalidade.
  • Melhora a função respiratória.

Deixar de fumar é um longo e duro processo individual. A nicotina é uma substância aditiva pelo que parar de fumar pode ter efeitos físicos e psicológicos que apenas podem ser debelados com ajuda farmacológica, psicológica e com a preciosa motivação do fumador.

 

A motivação é um ponto-chave na Cessação Tabágica

Os sintomas de privação são mais intensos nas primeiras 72h após o último cigarro, por isso mantenha o foco e nunca esqueça o objetivo final. À medida que o tempo passa os sintomas vão diminuir e o seu organismo vai-se habituar progressivamente à ausência de nicotina. Nesse período de adaptação pode sentir mais irritabilidade, tristeza, falta de energia ou vontade de estar sozinho. Nestes casos, para além da sua persistência, o seu médico pode ajuda-lo a criar um plano para superar esta difícil prova. Não se esqueça dos motivos porque quer parar e, caso seja necessário, evite ambientes onde sente vontade de fumar, como bares ou cafés. Isto é apenas temporário, mais tarde, assim que já não sinta a tentação, poderá a voltar a fazer a sua vida como habitualmente.

Nesses momentos em que a vontade de fumar é grande e quase invencível, opte por distrair a sua mente, mantenha as suas mãos ocupadas, saia do local onde se encontra, beba um copo de água, masque uma pastilha elástica, conte até 10 ou respire fundo. Estas manobras de distração da mente costumam ajudar a afastar esses pensamentos mais demoníacos.

Se está motivado a deixar de fumar também é importante adquirir um estilo de vida mais saudável para que o objetivo seja atingido de forma mais leve.

 

Controlo adequado das outras doenças 

Manter a motivação durante o processo de cessação tabágica é essencial para que esta tenha sucesso e é importante que concentre as suas energias neste sentido. De forma a alcançar o seu objetivo é crucial que não tenha outros “problemas” a desviar a atenção do seu foco. Cumpra toda a medicação prescrita pelos seus médicos, só assim terá as outras doenças controladas e poderá concentrar-se nesta batalha. Isto é ainda mais importante se tiver alguma doença psiquiátrica, como a ansiedade ou a depressão, que sabemos serem um motivo frequente de falência deste plano.

 

Controlo de peso

Vários fumadores, principalmente os mais jovens e do género feminino, referem aumento de peso após deixarem de fumar. Isto é normal e ocorre devido à diminuição do metabolismo basal e/ou ao aumento da ingestão calórica porque a comida passa a cheirar e a saber melhor. Muitas refeições voltam a ser recheadas de sabores mais intensos o que leva a algum excesso de consumo. Este prazer em comer é muito positivo, mas em vez de aumentar a porção de alimentos ingeridos porque agora tudo lhe sabe melhor, experimente aumentar o tempo que leva a mastigar.

O DPOC.PT pediu ajuda à nutricionista Maria Paes Vasconcelos, que faz parte do quadro do AIR Care Centre, para nos ajudar a explicar melhor como isto acontece, agradecendo desde já a sua colaboração.

Todos os sentidos são estimulados durante a mastigação, deixando de ser eficazes assim que engole. O aspeto (visão) dos alimentos é essencial para tornar apelativa a refeição, e já dentro da boca temos os 5 sabores (paladar): salgado, doce, amargo, ácido e umami mas as pequenas nuances são detetadas pelo nariz (olfato). O prazer também está associado à temperatura do alimento (gelado morno? arroz frio?) e à sua consistência e humidade (tato), acrescendo finalmente a audição: bolachas já moles têm o mesmo gosto, mas consistências e sons ao mastigar bastante diferentes!

Ao deixar de fumar é importante que faça várias refeições por dia, pequenas, mas saborosas, para que o organismo receba energia dos alimentos ao longo do dia, de um modo estável e evitando que sinta fome. Assim evita-se o “junta-se a fome à vontade de comer”: mesmo que a vontade de comer aumente, se não tiver fome, é mais fácil evitar exageros e que engorde em demasia.

Na altura em que começa a pensar em deixar de fumar, observe os ritmos do seu dia alimentar (quais são as refeições que faz, a que horas, onde e com quem) e os hábitos tabágicos. É muito comum referir-se que no final de uma refeição recheada e saborosa apetece puxar de um cigarro, principalmente quando inserido num grupo de amigos fumadores, e uma estratégia útil será substituir esse cigarro por uma volta a pé, desafiando o grupo a juntar-se a si: não só faz exercício, que ajuda a evitar o ganho de peso, como dá bem-estar, equilibrando a falta do prazer do cigarro, e ajuda na digestão.  Não é fácil resistir, e até pode não conseguir convencer ninguém, mas vá sozinho, o que importa é libertar-se da prisão do cigarro!

O exercício físico regular é essencial para evitar o ganho excessivo de peso, no entanto, se este aumento de peso for um problema sério para si, pode ser elaborado um programa nutricional personalizado ou então devem ser escolhidos os medicamentos que estejam associados a um menor aumento de peso.

 

Tratamento comportamental

O objetivo deste tipo de tratamento é o de alterar o comportamento da pessoa dependente, como é o caso de quem é fumador, e envolve a auto-ajuda e o aconselhamento. O tratamento comportamental engloba uma consulta com o apoio psicológico ou psiquiátrico de acordo com as necessidades identificadas pelo médico que o acompanha na cessação tabágica.

Algumas das técnicas utilizadas consistem em promover o exercício físico, treinar a respiração e a evicção de locais ou atividades que estejam associadas ao hábito de fumar, como tomar café ou frequentar bares. Existem outras estratégias usadas pelos fumadores como mascar uma pastilha elástica ou beber chá em vez de café.

 

Tratamento farmacológico

Apesar de todas as medidas referidas anteriormente, a utilização de fármacos aumenta substancialmente o sucesso da cessação tabágica. São várias as opções disponíveis, cada uma com as suas vantagens e desvantagens, mas todos são considerados seguros para a saúde em geral.

Os fumadores que desejam abandonar este vício devem ser encorajados a iniciar a terapêutica farmacológica exceto se existir alguma contraindicação absoluta ou se fizerem parte de grupos específicos onde o benefício ainda não está bem documentado (gravidez ou hábitos tabágicos ocasionais). Os doentes com eventos cardiovasculares recentes, como um enfarte do miocárdio, ou com patologia psiquiátrica requerem atenção especial na prescrição, uma vez que alguns efeitos adversos destes medicamentos afetam o coração ou o sistema nervoso. Estão disponíveis alguns tipos de fármacos para a cessação tabágica: os que contêm nicotina (TSN) e os que não (bupropiona SR e vareniclina).

A TSN contém nicotina, a substância responsável pelo desenvolvimento da dependência ao tabaco. Ao administrar nicotina por outro meio que não o cigarro evita-se o contacto com todos os outros componentes tóxicos do cigarro conseguindo-se “programar” o desmame dessa substância. É importante que perceba que a nicotina em excesso também tem efeitos secundários, nomeadamente cardiovasculares, pelo que se estiver a fazer este tratamento não pode nem deve continuar a fumar. Pode ser usada nos fumadores com DPOC, independentemente da gravidade e do número de cigarros consumidos, sendo que a sua dose deve ser ajustada de acordo com a carga tabágica e o grau de dependência. A terapêutica com nicotina pode ser administrada através de um sistema transdérmico (ou seja, um penso na pele), gomas ou pastilhas, entre outros.

Tipos frequentes Características
Transdérmico Pensos com nicotina na pele. Pode ter a duração de 16 ou 24h. O tempo de uso aconselhado é de 12 semanas.
Pastilha/ goma

Deve ser trincada – sentirá uma sensação particular que indica que a nicotina está a ser libertada. Posteriormente, coloque a pastilha junto à bochecha para que a nicotina seja absorvida lentamente. O número de pastilhas a usar depende da dose e se está a usar um sistema transdérmico associado.

 

A bupropiona é também usada com bons resultados na cessação tabágica e os estudos mostraram que é um tratamento seguro. Tem um destaque maior em doentes que apresentem sintomas tipicamente depressivos, podendo atuar de forma ativa mas também preventivamente, evitando o desenvolvimento de sintomas depressivos associados à privação de nicotina. Como qualquer medicamento, tem que ser pesada a sua relação custo-benefício.

A vareniclina é um fármaco que impede que a nicotina se ligue aos seus recetores no cérebro e que este deixe, aos poucos, de se “lembrar” da nicotina. Tem bastantes benefícios clínicos e a duração do tratamento ronda os 3-6 meses. Infelizmente, alguns doentes sentem alguns efeitos adversos, como a insónia, o que faz com que abandonem a sua utilização antes de deixarem de fumar completamente.