Causas

Porque tenho eu DPOC?

 

Não conhecemos ninguém que goste de estar doente, mas deve ser especialmente assustador saber pela primeira vez que se tem uma doença que estará para sempre presente, muito incomodativa e limitativa e que é incurável, como é o caso da DPOC. Qualquer pessoa consegue imaginar o que passou pela cabeça do senhor Edmundo (se não se lembra de quem é visite esta página) quando percebeu que iria estar para sempre ligado a uma doença que não tem cura. Não se trata de uma situação passageira que pode ser tratada e esquecida alguns anos depois – não é possível apagar a DPOC da pessoa.

O Homem gosta de saber o porquê das coisas ou perceber o cerne de cada situação, mas na DPOC nem sempre é possível encontrar ou julgar o culpado, uma vez que por vezes o réu é também o queixoso.  Existe alguma controvérsia sobre o facto de se os médicos devem ou não responsabilizar o doente nos casos em que a doença é provocada por um mau hábito, como por exemplo o consumo de tabaco.

Como veremos mais adiante, culpabilizar esta pessoa, principalmente quando recebe esta noticia, o que por só por isso já a altera emocionalmente, pode ter um efeito bastante negativo e fatal no sucesso terapêutico. Só a mais fria das pessoas consegue ficar impávida e serena quando é confrontada diretamente dessa maneira. É preciso ter alguma compreensão e tolerância e, ao mesmo tempo, motivação para ajudar essa pessoa a mudar. Já para não falar que a existência de um “choque frontal” entra o médico e o doente é incompatível com o desenvolvimento da famosa relação médico-doente.

Ao mesmo tempo, não deixa de ser verdade que alguns doentes precisam de ser responsabilizados e chamados à razão, senão irão continuar a cometer os mesmos erros. Nem sempre é fácil identificar quais são as pessoas que vão lidar melhor com a notícia e qual a abordagem mais apropriada para aumentar o sucesso do tratamento. Mas que não hajam dúvidas de que sem uma verdadeira mudança por parte do doente não é possível efetuar uma mudança positiva no sentido do alivio das queixas e na diminuição do risco de agravamento mais rápido desta doença.

Independentemente disto tudo, vamos imaginar que recebe esta notícia pela primeira vez. Vinha a uma consulta porque andava com tosse, um pouco de cansaço ao mais pequeno esforço, foi fazer uns exames e aquilo acusou algo. Provavelmente saberia pouco ou nada sobre a DPOC e dizem-lhe que é uma doença pulmonar crónica, não tem cura, e que tem de fazer tratamento para toda a vida para que esta não seja muito limitante. Não ficava assustado? Qualquer pessoa ficava, sem dúvida. Ou se o leitor já é um doente com DPOC, não sentiu isto na pele? Não lhe passaram mil ideias pela cabeça ao mesmo tempo durante aqueles breves segundos após lhe ter sido comunicado que estava destinado a conviver para sempre com esta doença definida por 4 letras?

Se nos colocarmos na pele do doente, conseguimos imaginar que em cada pessoa a quem foi dada a noticia de que tinha DPOC uma pergunta saltitava dentro dele ou dela: “porque tenho eu isto?”.  Na nossa opinião é importante que saiba que é normal que sinta angústia e medo, que podem surgir dúvidas e alguma sensação autodestrutiva de culpa, o que poderá prejudicar a sua qualidade de vida e complicar a atitude de como responderá a esta adversidade. Se foi fumador ou se não usou a proteção respiratória devida em certas profissões de risco, acho que um médico tem que responsabilizar um pouco a pessoa, pois seja de forma voluntária ou involuntária, a maioria das pessoas não tem a doença por “ironia do destino” ou devido a uma anomalia genética. Mas mesmo nesses casos, não devemos ser demasiado bruscos senão corremos o risco de o perder para sempre. É importante usar a ponderação e também cultivar a compreensão. Só assim se irão recolher os frutos, ou por outras palavras, a melhoria das suas queixas.

Mas não pode desistir e dar-se por vencido – claro que é fácil de falar quando é com os outros, mas a verdade é que as diferenças na qualidade de vida e da sua saúde que se observam entre os doentes que deixaram de fumar, passaram a fazer mais exercício e a gerir os seus esforços e os que não o fizeram é gritante. Se não tiver força de vontade, não há nada que o médico possa fazer para o ajudar. É a pessoa doente que decide como vai ser o seu futuro a partir do momento em que está num gabinete médico e descobre que a vida vai mudar. E como vai ver, esse futuro não tem que ser negro e existem milhares de exemplos de casos de sucesso.

Como já deve ter percebido o tabaco tem um papel importante nesta doença, no entanto, a maioria das pessoas desconhece a relação da exposição tabágica com esta doença respiratória e isto terá que ser alvo de uma mudança imprescindível. É importante que exista um maior esclarecimento e difusão destes fatores de risco.

Para muitas das pessoas que vão ler este texto e que já têm o diagnóstico da doença, já é tarde para impedir o seu desenvolvimento, mas conhecendo o que é prejudicial para a DPOC talvez consigam amortecer o efeito limitativo da doença, suspendendo ou anulando a exposição a qualquer um dos fatores de risco e protegendo as suas vias aéreas de mais destruição.

Um dos principais objetivos do DPOC.PT é transmitir esperança e acreditamos que se souber mais sobre a doença, o que era até então desconhecido deixa de o ser e eu acredito que se torna mais fácil para si perceber a sua doença, como melhorar a sua qualidade de vida e porque o tem que fazer. Ao simplificar a DPOC esperamos não veja esta doença de uma forma tão dramática e que consiga melhorar a sua qualidade de vida.