Cirurgia

Para muitas pessoas ser “operada” é sinónimo de que vai ficar curada ou que é a melhor solução para o seu problema, independentemente do medo ou pavor que tenham da anestesia ou da própria intervenção em si. Na DPOC, a opção cirúrgica é efetivamente um dos últimos recursos na abordagem de quem tem a doença, e normalmente isso traduz uma evolução menos satisfatória ou uma má resposta ao tratamento médico e às alterações no estilo de vida de que lhe tenho vindo a falar. Destina-se por isso, na maioria dos casos, aos doentes que aderiram pouco a estas medidas ou a casos muitos específicos, no qual o beneficio é superior ao perigo da intervenção.

Tal como em todas as cirurgias, existem critérios muito específicos para determinar o beneficio/risco de cada procedimento e que devem ser sempre tidos em conta. Habitualmente são os cirurgiões torácicos ou cardio-torácicos os responsáveis por esta área do tratamento da DPOC, e por isso pedimos ao Dr. João Freitas, do Serviço de Cardio-Torácica do CHUC, para nos ajudar a perceber melhor quais as cirurgias disponíveis e quando devem ser colocadas em cima da mesa.

 

A Cirurgia Torácica

É importante que fique desde já assente que a cirurgia nunca é o tratamento inicial num doente com DPOC, estando reservada para as pessoas com uma doença mais grave, em que todas as outras medidas não tiveram qualquer impacto e que cumprem determinadas características, nomeadamente quando existe enfisema pulmonar. Iremos falar das cirurgias que são realizadas na zona do tórax e que podem ser úteis em alguns destes doentes.

Vejamos por exemplo a Bulectomia, uma intervenção que visa a remoção das bolhas de ar que se foram formando no pulmão, e está especialmente indicada quando estas atingem grandes dimensões, ocupando mais de 30% do pulmão. Estas bolhas, que têm de ter mais do que um centímetro de tamanho, formam-se devido à distensão dos alvéolos quando o bronquíolo fica obstruído e não contribuem para as trocas gasosas, não ajudando a fornecer oxigénio às diversas células do corpo. Quando presentes, esta formações podem provocar compressão do restante pulmão normal, tornando-se bastante sintomáticas, por exemplo, resultando em falta de ar muito incómoda ou tosse. Nos casos em que se decidiu pela intervenção cirúrgica, os resultados mostraram uma melhoria da função pulmonar e dos sintomas. As pessoas com bolhas mais pequenas ou com poucos sintomas não têm indicação para serem operadas.

A Cirurgia de Redução do Volume Pulmonar é uma opção um pouco mais frequente que a anterior, e quando tem indicação melhora as queixas de falta de ar dos doentes e diminui a limitação funcional que a doença provoca. Consiste na remoção das zonas enfisematosas, principalmente se localizadas nas porções mais superiores do pulmão, diminuindo o aprisionamento do ar pulmonar, esperando-se que leve a uma maior eficácia do trabalho muscular associado à respiração, a uma maior capacidade de realizar esforços, a menor sensação de dispneia e a melhor qualidade de vida.

A cirurgia pode ser realizada através da abertura do esterno ao meio ou através da realização de um pequeno corte entre as costelas, lateralmente. Em ambos os casos, pode-se remover até 20 a 30% do pulmão de cada lado. Em alguns Hospitais a cirurgia é menos invasiva, sendo realizada por toracoscopia com apoio de um sistema vídeo, onde se fazem apenas umas pequenas incisões na pele, e é tudo controlado por sofisticados instrumentos operatórios comandados pelo cirurgião. Parece um videojogo do futuro, mas é real e funciona muito bem!

Este procedimento cirúrgico pode ter algumas complicações, o que é de esperar uma vez que todas as cirurgias têm os seus riscos, e entre eles destacamos a infeção respiratória, a hemorragia, a alteração do ritmo do coração, a insuficiência respiratória, entre outras. Tem uma taxa de mortalidade que ronda os 5%, traduzindo a gravidade dos doentes que normalmente são submetidos a esta intervenção. Não se esqueça que a própria anestesia tem o seu risco.

 

Dúvidas frequentes

Ao retirar uma parte do pulmão não vou ter ainda mais falta de ar?

A grande maioria das pessoas com DPOC consegue sobreviver mesmo tendo apenas um pulmão. Não é uma situação única no ser humano, muitas pessoas vivem bem sem um rim. De qualquer modo, na maioria dos casos retiram-se apenas uma pequena parte do pulmão pelo que não tenha qualquer receio. Aliás, vários estudos demonstraram que a retiradas das bolhas que comprimem o pulmão permitiam ter uma capacidade respiratória muito superior à que tinham previamente à cirurgia.

 

Vou ficar com uma cicatriz?

Independentemente do tipo de intervenção escolhido, irá ficar com algumas marcas na pele. Obviamente que elas serão mais discretas no caso da toracoscopia, mas mesmo que seja necessário fazer um corte entre as costelas lateralmente, estas incisões são muito menores do que era padrão há uns anos atrás.

 

Qual o papel da reabilitação respiratória após a cirurgia torácica?

Depois de qualquer cirurgia torácica é natural que exista alguma diminuição da capacidade de conseguir inspirar eficientemente bem como de conseguir fazer entrar e sair o mesmo volume de ar. Essa perda funcional é tanto maior quanto mais complexa for a cirurgia. A Reabilitação Respiratória acelera o processo de recuperação e ajuda a evitar que estas perdas sejam permanentes.