Comer melhor

O objetivo do aconselhamento nutricional é o de garantir que se consegue produzir a energia adequada para minimizar o risco de perda de peso indesejado, evitando a perda de massa livre de gordura (onde se inclui o músculo), prevenir a desnutrição e, indiretamente, melhorar a função pulmonar. Para isso, é fundamental que se determine o seu peso ideal, o que vai depender de muitos fatores, incluindo a história pessoal do peso, a altura, idade, sexo, etc., e a partir daí, se possa decidir quanta energia necessita por dia na fase da doença em que se encontra, e qual a proporção de nutrientes (proteínas, gorduras e hidratos de carbono) que lhe fornecerão essas calorias.


Além disso, uma alimentação equilibrada, variada e completa, como recomenda a Roda dos Alimentos, permite receber outros nutrientes essenciais à vida, mas que não nos fornecem energia: as vitaminas e os minerais. Estes micronutrientes são fornecidos por todos os alimentos, não havendo alimentos melhores ou “completos”: a variedade é crucial.   Por exemplo, as frutas, legumes e saladas ajudam a proteger o corpo das agressões da própria inflamação, mesmo que não nos tragam muita energia.

Existem ainda algumas particularidades dos doentes com DPOC. Para isso, contamos com a preciosa colaboração da Nutricionista Dra. Maria Paes de Vanconcelos, que colabora no Air Care Centre e tem experiência com doentes com DPOC em Reabilitação Respiratória. Leia também o artigo sobre a importância da Nutrição na DPOC.

Comer devagar é uma regra de ouro da alimentação saudável, mas que em excesso pode ser nociva. Ao fim de 20 a 30 minutos os sinais de saciedade começam a chegar, e se a toma da refeição for muito lenta há o risco de não conseguir ingerir tudo o que estava previsto.  Por essa razão é preferível fazer pequenas refeições de 2 em 2 horas (no máximo 3 horas) ao longo do dia, para evitar o enfartamento precoce. Assim, os alimentos são distribuídos ao longo do dia e o organismo recebe um fluxo contínuo de energia e de nutrientes, evitando que o músculo seja utilizado como fonte de energia.

Esta regra é muito útil, ajudando ainda a evitar o refluxo gastro-esofágico, ou seja, a subida de alimentos do estômago para o esófago, provocada pela tosse frequente, e que leva a azia e à inflamação do esófago, que não está preparado para receber os ácidos do estômago. Pode também beber água apenas fora das refeições, para evitar encher muito o estômago, ou até dividir o almoço/ jantar em várias tomas, para assegurar que consegue comer a refeição completa.

O cansaço fácil leva a que se evite preparar as refeições, usando com maior frequência refeições pré-confecionadas, enlatados, ou até mesmo papas infantis. Não há problema em escolher alimentos fáceis de preparar desde que tenha atenção à variedade, evitando a monotonia, e que não esqueça os vegetais e frutas frescas, pois contêm nutrientes que não existem nos cozinhados.

DICA DA NUTRICIONISTA: Comece sempre o dia com uma refeição, ainda de pijama, seja o pequeno-almoço ou apenas um quebra-jejum, para interromper o mais cedo possível o jejum noturno. Lembre-se que nessa altura os alimentos da véspera já foram gastos, e que a atividade física da higiene matinal, vestir, arrumar o quarto, etc. exige uma nova toma. Pode tomar banho (água morna/quente) após o pequeno-almoço sem perigo de congestão, desde que não faça ao pequeno-almoço o seu almoço!

Outros conselhos específicos para a alimentação na DPOC debruçam-se sobre os gases intestinais, que podem interferir com os movimentos respiratórios, causando desconforto. O culpado e a solução para este problema dependem sempre de pessoa para pessoa, mas podem passar por evitar alimentos como o feijão, grão, couve-flor, alface, ou até a lactose (caso haja intolerância). Por outro lado, o sal em excesso altera a distribuição dos fluidos no organismo, podendo provocar edemas, aconselhando-se a sua substituição parcial pelas ervas aromáticas e especiarias para manter o sabor dos cozinhados.

Como parte de um plano terapêutico de sucesso, a avaliação e o enquadramento nutricional devem ser promovidas e regularmente adaptadas, de acordo com a evolução apresentada. O aconselhamento e um plano nutricional individualizado, que respeite os gostos e tradições, que se adapte aos ritmos de vida e que seja fácil de integrar no agregado familiar, é muito importante no tratamento, mostrando-se fundamental na evolução do quadro geral e na melhoria da qualidade de vida.

O objetivo será sempre conseguir uma alimentação saudável, adaptada a si, e que não sinta como uma dieta, mas como um “eu agora como assim!”. Experimente!