Défice α1-antitripsina

A principal causa genética da DPOC

 

Muitos doentes perguntam na consulta se não podem ser os genes os culpados pelo inicio da incomodativa falta de ar ou da tosse irritante, isto porque o pai, o bisavô ou a tia-avó já tinham tido as mesmas queixas. Hoje sabe-se que em alguns casos a genética pode ter realmente um papel na génese da doença, mas ainda não está bem definido qual é, principalmente porque a cada dia que passa vão sendo descobertas novas facetas do genoma humano e o que se sabe sobre ele ainda é muito superficial.

Efetivamente é verdade que algumas doenças ou defeitos genéticos podem ajudar ao desenvolvimento da DPOC. Vamos incidir no defeito mais frequente, porque estar a falar de genes, cromossomas e aberrações que só acontecem quase uma vez num milhão não fará muito sentido. Algumas pessoas devem o inicio da doença a um defeito genético que está relacionado com o cromossoma 14 e que se designa por Défice de Alfa-1 Antitripsina. O cromossoma é uma sequência de ADN que transporta os genes, as entidades que contém toda a informação genética. Esta doença é hereditária, ou seja, os pais podem passar a doença aos filhos, sem depender do consumo do tabaco ou de outro tipo de exposição de risco, mas é isto é pouco frequente e raramente estes casos são muito graves.

Caracteriza-se então pela diminuição da Alfa-1 Antitripsina (AAT), que é uma proteína produzida pelo fígado e que tem como função inibir a ação principalmente da elastase neutrofílica mas também da tripsina. A AAT normalmente impede que estas duas enzimas provoquem lesões em vários órgãos, como o pulmão ou o fígado, uma vez que estas podem promover a destruição dessas estruturas corporais. Trata-se, portanto, de um sistema protetor do bom funcionamento e da estrutura do organismo humano. Como já deve ter percebido, se existir menos AAT a elastase vai estar livre para provocar a destruição pulmonar e vai haver um impacto no bom funcionamento orgânico.

De uma forma resumida, normalmente uma pessoa tem no seu ADN um gene com 1 par de alelos M (Pi*MM). Já as pessoas com esta doença, apresentam um ou mais tipos diferentes de alelos, que são menos funcionantes ou não funcionam de todo. O défice será mais grave em pessoas com os pares Pi*ZZ ou Pi*SZ, ou seja, não têm nenhum alelo M normal (que se caracterizam por níveis muito baixos de AAT). Na maioria das situações, esta deficiência não é suficiente para provocar problemas de maior ao seu pulmão, ou então os sintomas surgem muito tarde. Entre outros motivos, sabe-se que o tabaco ou a exposição a agentes irritantes no trabalho podem ajudar a dar importância a este defeito genético, por exemplo, facilitando a inativação da AAT, tornando-se assim a deficiência ainda mais perigosa e preocupante.

 

Quais são os seus sintomas? 

Apesar de ser possível passar muitos anos sem existir qualquer sintoma que indique que a pessoa esteja doente, em muitos casos as pessoas com esta deficiência começam por referir a sensação de falta de ar, tosse crónica ou sintomas gastrointestinais. É frequente também sofrerem infeções pulmonares frequentes, como uma Pneumonia, Bronquiectasias (que são dilatações anormais e irreversíveis dos brônquios) ou o Enfisema Pulmonar. Para além do pulmão, e como já referimos, também pode atingir o seu fígado, podendo provocar Cirrose Hepática ou progredir para a temível Neoplasia do Fígado. Muito raramente, este défice pode provocar ainda outras complicações, tal como uma doença dos vasos sanguíneos chamada de Vasculite ou uma doença inflamatória da pele – a Paniculite necrotizante.

E sabe uma coisa? Pode nunca vir a sentir nada. É raro, mas acontece.

 

O diagnóstico é fácil?

O seu médico vai suspeitar desta doença se uma pessoa tiver DPOC e for jovem, se já existirem outras pessoas na família com esta doença ou se nunca tiver fumado. Pode pensar “então não fumar afinal faz mal?”, mas isto apenas quer dizer que se a pessoa tem DPOC, mas não fuma, é mais provável que seja provocada por uma doença hereditária. Não se esqueça nem todos os doentes com DPOC são fumadores.

Nesta situação, deve ser feita uma avaliação da quantidade e características da AAT que o organismo da pessoa produz. Estas importantes e especificas análises permitem perceber quais os alelos que cada pessoa possui e se existe alguma deficiência e qual a sua gravidade. Podem ainda ser realizados outros exames para perceber melhor o quadro da doença e excluir outras patologias que possam estar a confundir: desde as Provas Funcionais Ventilatórias, a TAC-Tórax, entre outras.

 

O tratamento

Todas as pessoas fumadoras com deficiência de AAT confirmada devem parar de fumar. Convém explicar-lhe que apesar de ser bastante mais frequente em pessoas não fumadoras, uma pequena percentagem dos doentes com a deficiência fuma, e nesta altura já não preciso de explicar que fumar é mau, certo?

A maioria dos doentes apenas necessita de tratamento de suporte, ou seja, o objetivo é melhorar e aliviá-lo dos seus sintomas e tomar as medidas necessárias para que não exista um agravamento da doença com grande prejuízo da sua qualidade de vida. Existem várias opções, desde iniciarem-se fármacos inalados que dilatam os brônquios para respirar melhor, a corticosteróides inalados para combater a inflamação, a realizar a vacinação anti-gripal e anti-pneumocócica para uma maior proteção contra uma infeção, entre muitos outros. A recompensa que se pretende é que consiga viver descansado, com menos queixas e que não apresente qualquer limitação relevante na sua vida no dia-a-dia. No fundo, deseja-se que tenha uma vida o mais normal possível.

Apenas uma pequena fração dos doentes tem indicação para fazer tratamento de reposição da AAT com a Prolastina. Neste caso, é fornecida uma quantidade suficiente da enzima para substituir as que estão em falta, de modo a que não exista mais destruição pulmonar. Este tratamento é exclusivamente para os doentes que, para além de terem níveis baixos da enzima, apresentem nas provas funcionais uma função pulmonar bastante comprometida. Não existe em forma de comprimido oral, tendo que ser administrado de forma endovenosa, ou seja, através de um catéter na veia.

Nos doentes em que verificamos um agravamento rápido do seu estado geral e em que toda a terapêutica e medidas instituídas tenham falhado, pode ser ponderado um procedimento cirúrgico: desde a cirurgia de resseção de uma parte do pulmão   transplante Pulmonar. E se existir um atingimento grave do fígado, também pode ser preciso realizar o Transplante Hepático.