A DPOC

O que é a DPOC?

Nota do Coordenador Geral do DPOC.PT – Para perceber melhor o que é esta doença vamos começar por imaginar uma pequena história.

Estava no eu consultório e a próxima consulta era uma “primeira vez”, o que quer dizer que nunca tinha visto essa pessoa anteriormente – era um (possível!) doente completamente novo e desconhecido para mim. Fui ver a informação que o médico de família enviou quando pediu a consulta e pareciam-me as típicas, mas também pouco especificas, queixas respiratórias. Tratava-se de um senhor já de idade que apresentava há vários meses queixas de falta de ar constante, tosse arrastada com expetoração por vezes escura e que apesar de ter feito alguma medicação sugerida por esse médico não havia jeito do senhor melhorar. Posto isto, o meu colega achou que estava na altura de procurar uma ajuda mais especializada. A informação terminava com a nota de que era uma pessoa que gostava de fumar o seu cigarro e que um ou dois não chegavam. Eram quase dois maços por dia! Na manhã desse mesmo dia o senhor Edmundo (imaginemos) acordou e nem precisou de despertador. Uma mão vai para o interruptor do candeeiro e a outra vagueia pela mesa de cabeceira em busca de algo, o que após uns momentos facilmente encontra. Era o maço de tabaco.

O senhor Edmundo estava nervoso. Ia visitar um médico no Hospital da cidade e como sabia que não andava bem tinha medo que fosse algo sério, receando que fosse cancro ou algo do coração. Ao menos fumar ajudava a quebrar essa ansiedade, pensava ele, pelo que fumou durante a viagem de carro e ainda um cigarro antes de entrar no portão principal da instituição. Ele sabia que o tabaco podia dar tosse, mas já fumava há muitos anos e estas queixas só ficaram piores há um ou dois anos, pelo que não devia ser disso.

Finalmente chamo-o pelo intercomunicador e o homem entra. Veio sozinho, mas com ele entra o cheiro culpado do fumo do cigarro. Na minha cabeça, começo a montar o esquema da consulta e já estou a preparar a abordagem a este problema. Peço-lhe para que ele me explique o que sentia e porque veio a esta consulta. Às vezes, é mais fácil deixar a pessoa falar livremente e contar a sua própria visão dos problemas e como os interpreta.

Para o senhor Edmundo o problema era simples. Queixou-se de uma tosse bastante incomodativa, que até o embaraçava quando estava a jogar cartas com os amigos no bar, muitas vezes com saída de secreções amarelo-escuras durante uma tossidela mais forte. Referiu também uma sensação estranha de falta de ar, quase todos os dias e que por vezes nem conseguia dizer uma frase direito. Já tinha feito algumas “bombas”, uma palavra com que muitas pessoas batizam os inaladores, que não tinham feito nada, pelo que precisava de ajuda. Pergunto-lhe se associa estas queixas com alguma doença ou qualquer outra situação, ele pensou e lá assumiu: “será do tabaco?”

Ele contou-me a história toda, mas resumindo, começou a fumar por volta dos 18 anos quando esteve na Guerra no Ultramar. Inicialmente, eram apenas uns cigarritos por diversão e por influência dos seus colegas de armas e ele achava que facilmente se livrava do vicio. Naqueles tempos ainda não se falava dos perigos do tabaco, pelo que para o jovem Edmundo era apenas um hábito caro e que deixava um sabor estranho na boca. Entretanto, com a Revolução a Guerra terminou e ele retornou para a pátria, mas para o Edmundo o vício continuou. Voltou para a terra, casou-se e foi trabalhar para uma empresa como fiel de armazém, o que fez toda a vida.

Sempre foi muito nervoso, e ainda ficou pior depois de voltar de África, pelo que o tabaco foi a forma que encontrou para combater essa ansiedade, pois nunca quis falar sobre os seus problemas com um psiquiatra. Isso são coisas para os maluquinhos, dizia ele. Há medida que os problemas iam-se colecionando também o número de cigarros que fumava por dia ia aumentando. E isto foi-se passando até a este momento, em que estamos os dois naquele consultório.

Avalio e ausculto o senhor, que realmente tinha alterações na auscultação em ambos os pulmões. Os lábios eram um bocadinho escuros, mas ele dizia que fora sempre assim. Nos dedos das mãos eram visíveis algumas marcas de queimaduras, provavelmente de um ou outro cigarro que ficou esquecido. Era magrinho, apesar de dizer que comia de tudo. Procuro saber mais dados da saúde do senhor, mas ele responde que raramente ia ao médico, não fazia qualquer medicação habitual e que a única coisa que sabe é que a tensão arterial por vezes é alta.

– E então, doutor? – diz o senhor Edmundo – isto é grave?

– É assim, precisamos de fazer uns exames primeiro para perceber melhor o que é. Antes de tudo, tem que pensar em deixar de fumar, posso ajudar nisso, só precisa de ter vontade. E…

– Okay, Okay, mas acha que é cancro?

– Não me parece, mas preciso de alguns exames para perceber melhor a situação toda. Eu estou a apontar sinceramente para uma doença muito associada ao tabaco, a DPOC…

– DPOC? O que é isso?

Esta introdução serve para ilustrar a reação de desconhecimento e surpresa de uma grande parte das pessoas quando falamos da DPOC. Mesmo nos dias de hoje, em que temos tantos programas de saúde na televisão e um rápido acesso aos mais diversos meios de informação, ainda existem muitas pessoas que ficam espantadas e surpreendidas quando falamos desta doença.

 

A DPOC

Esta sigla estranha, com quatro letras e que algumas pessoas têm dificuldade em pronunciar, são as iniciais de Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica. Esta doença faz parte do grupo das patologias respiratórias e é mesmo uma das mais importantes e frequentes em Portugal e no Mundo, e por isso é estudada principalmente, mas não só, pela Pneumologia.

Como o próprio nome indica, é uma doença crónica, que pode e deve ser evitável, mas que infelizmente ainda não tem nenhuma forma de cura disponível. Resumidamente, é caracterizada por uma obstrução progressiva e persistente na passagem do ar pelas vias respiratórias (nomeadamente os brônquios e as suas várias divisões mais pequenas) e está associada a um estado inflamatório não só nessas zonas, mas sabe-se agora que afeta todo o corpo. Pode parecer-lhe muito complicado, mas no DPOC.PT vamos tentar simplificar de forma a que a consiga entender e perceber sem qualquer dúvida.

Tal como em quase tudo na vida, existem uma ou várias causas ou fatores que facilitam ou levam ao seu desenvolvimento. Na maioria dos casos, é provocada por uma resposta anormal do organismo a algumas partículas inaladas ou a gases nocivos, a maior parte provenientes do tabaco, mas também de lareiras e de fogões a lenha/carvão, entre outros. O perigo mora mais perto do que muitos imaginam e às vezes nem sonhamos que coisas a que estamos habituados desde crianças possam estar associadas a doenças tão graves. Quem nunca comeu aquele prato caseiro ou um simples pão feito pela avó num forno tradicional da aldeia?

A DPOC vai afetar a respiração que é um fenómeno que acontece mesmo que não esteja a pensar nele, pois é uma função corporal autónoma e regulada pelo cérebro. Quando respira existe uma divisão percetível em duas fases: a inspiração (a entrada de ar para os pulmões, pelo nariz ou boca) e a expiração (a saída desse ar). No interregno dessas duas fases, e durante alguns microssegundos, ocorrem as trocas gasosas entre o ar e o sangue nos alvéolos pulmonares, de que falaremos com maior pormenor em breve.

O grande problema na DPOC é que, principalmente em doentes com graus mais avançados da doença, os brônquios e as suas divisões mais pequenas são submetidos a episódios inflamatórios quase contínuos e que vão levar a uma limitação da saída de ar dos pulmões. Ou seja, o ar fica retido nos pulmões, pois não é completamente expulso durante a expiração. Esta inflamação maciça pode provocar também destruição dos alvéolos, alterando a dinâmica respiratória habitual e normal e levar a uma diminuição clara na capacidade respiratória da pessoa.

Tal como aconteceu com o senhor Edmundo, muitas vezes as pessoas convivem muito tempo com algumas das queixas típicas da doença e não as associam imediatamente à DPOC ou mesmo a uma doença dos pulmões. Algumas pessoas atribuem o aparecimento da falta de ar (o que os profissionais de saúde chamam de dispneia) e/ou da tosse como a evolução natural do envelhecimento, ou mesmo do consumo de tabaco. Por outras palavras, não imaginam que podem estar doentes.

Se não é o seu caso, pense em algum dos seus familiares ou amigos mais idosos. Será que alguma vez valorizou desta forma as queixas que ele ou ela têm de falta de ar ou de tosse? Tenho constatado, e o mesmo é referido por outros colegas bastante mais experientes, que na cabeça de um doente os principais temores relativamente a uma doença são as do coração e o cancro. Obviamente que as especialidades médicas não são um clube de futebol e não existe um campeonato a ver quem ganha mais ou é mais importante, mas penso que as vias respiratórias e as doenças que a afetam são muito pouco valorizadas tendo em conta o potencial de dano e prejuízo que podem causar.

Efetivamente, o doente com DPOC pode manter-se sem queixas nos períodos iniciais, estando a doença adormecida, não produzindo sintomas que o preocupem e por isso passa despercebida e sem ser diagnosticada. Podem passar-se alguns anos assim… Mais tarde, começará a sentir, a pouco e pouco, algumas das manifestações típicas da doença, ou mesmo outras mais raras e perigosas, e a revelar alguns sinais objetivos que o motivam a procurar o seu médico de família ou os serviços de urgência hospitalares. Infelizmente, em muitos destes últimos casos, a doença pode já ter um grau considerável e será mais difícil retardar a evolução da doença.

Como já referimos, existe de facto uma associação com o tabagismo – 90% dos doentes com DPOC foram ou são fumadores, mas não se limita apenas a estes. Podemos dizer que a prevalência desta doença é maior em pessoas fumadores, com mais de 40 anos de idade, caucasianos (raça branca) e do género masculino (isto é alvo de debate!). Estima-se que esteja presente em 10% da população (ainda que muitos deles não estejam diagnosticados), e em 50% dos fumadores. Se tem a doença e está a ler este texto, existe uma grande probabilidade de já ter fumado, certo?

É uma das principais causas de diminuição da qualidade de vida e de aumento da mortalidade a nível mundial, prevendo-se que essa influência irá crescer na próxima década (será a terceira causa de morte). Não é brincadeira nenhuma e deve ser levada bastante a sério por todos. Os grandes responsáveis por este aumento na mortalidade são a epidemia do tabaco (só agora começam a sentir-se os efeitos do início tardio do tabagismo nas mulheres), o envelhecimento da população e o melhor controlo dos fatores de risco cardiovasculares (que resultou em menos mortes por esse tipo de doenças).

É também uma importante fonte de despesa para todo o serviço nacional de saúde, nomeadamente com os custos associados à ida destes doentes aos serviços de urgência e internamentos hospitalares, mas também para as pessoas que têm a doença, dado que necessitam de comprar medicamentos que são relativamente caros e precisam de se deslocar para as consultas, ou mesmo realizar alguns exames para estudar melhor a situação.