Efeito da idade

A DPOC e os idosos

 

Não sei se é daquelas pessoas que tem pavor de festejar o seu aniversário ou que fica melancólico nesse dia, mas para muita gente envelhecer é um drama. Porque isso quer dizer que estamos mais vulneráveis a doenças, menos ativos, a pele começa a ter um aspeto diferente, perdemos cabelo, ficamos mais pequenos, etc. No entanto, é inegável que existem vários aspetos positivos em uma pessoa ir ficando mais velha: provavelmente viu a sua família crescer, vivenciou sucesso profissional, teve a oportunidade de viajar entre outros.

Não consegue impedir que os anos passem por isso é preferível que aceite e tente viver o melhor que conseguir. Antigamente dizia-se que os 60 são os novos 50, e em breve dir-se-á que os 70 são os novos 50. Com as inovações na Medicina e as grandes vitórias nos últimos anos/décadas ao nível da melhoria da qualidade de vida, profissional e de ambiente, é expectável que a esperança média de vida continue a aumentar.

No DPOC.PT já falamos sobre que a DPOC não é uma doença que apenas atinge os mais velhinhos, mas a verdade é que uma grande parte das pessoas que atualmente têm a doença já não são propriamente jovens. Pensa-se que o sistema respiratório seja o órgão que envelhece mais rapidamente, uma vez que por ser uma das principais interfaces entre o interior e o exterior do corpo está continuamente exposto a agressões e partículas tóxicas ao longo dos anos, tendo direito ao bónus indesejado de um aceleramento na diminuição da sua função com a idade. No fundo é como na sua casa, as paredes exteriores ficam sujas ou estragadas mais facilmente que as do interior, uma vez que estão expostas a fumos, chuva, neve, sol, trovoada, vento, etc.

Para que perceba melhor como a idade mais avançada pode afetar a parte respiratória este texto conta com o apoio da Dra. Diana Oliveira, do serviço de Medicina Interna dos Hospitais da Universidade de Coimbra e com interesse em Geriatria, que é a área que estuda e se dedica à população mais idosa.

A mortalidade decorrente das doenças respiratórias tem atingido progressivamente grupos etários mais elevados e a taxa de internamentos e óbitos por doenças respiratórias ocorrem sobretudo a partir dos 65 anos em todas as regiões do país, sendo um pouco mais frequentes no género masculino – isto são os dados oficiais a que temos acesso. A partir dos 75 anos essa taxa de mortalidade por doenças respiratórias aumenta de forma muito acentuada, o que torna este grupo de pessoas um foco de preocupação e de maior cuidado. Percebermos porque estas pessoas têm maior risco e como travar esse processo é indispensável para a prevenção, deteção e tratamento de doenças respiratórias crónicas e graves, como é o caso da DPOC.

Com o avançar dos anos o seu corpo sofre várias modificações seja a nível estrutural ou a nível das células e das reações química que permitem que nós funcionemos. Infelizmente algumas dessas alterações têm repercussão na capacidade respiratória e poderão tornar-se irreversíveis, deixando uma marca permanente e uma incapacidade parcial ou mais grave importante.

Relativamente ao aspeto estrutural ou anatómico, o envelhecimento modifica a configuração normal do tórax, que é a zona onde estão localizados os pulmões e isso vai diminuir a capacidade da parede torácica em colaborar para que consiga respirar nas condições desejáveis. A osteoporose, muito frequente nestas idades, leva à diminuição da altura dos corpos vertebrais resultando numa cifose acentuada e que prejudica a respiração, para além de muitas dores nas costas. Por outro lado, existe um espessamento da caixa torácica provocado pela calcificação das costelas, o que é perfeitamente normal nos idosos, mas que limita a expansão pulmonar durante a inspiração, não deixando entrar tanto ar dentro dos pulmões, e obriga o principal músculo respiratório (relembro-lhe que é o diafragma) a esforçar-se em demasia. A diminuição da massa muscular que auxilia na ventilação também agrava com o avançar da idade o que prejudica, por exemplo, o reflexo da tosse, mecanismo essencial para expulsar as secreções que se vão acumulando, que são o motivo de tosse e falta de ar, mas também uma fonte para o desenvolvimento de infeções.

Estima-se que por volta dos 40-50 anos se inicie o processo de degradação das fibras elásticas dos alvéolos, conduzindo ao alargamento do espaço aéreo (o Enfisema, que pode conhecer melhor também neste site) e isto contribui para a obstrução ou o encerramento prematuro das vias aéreas mais pequenas e frágeis durante uma respiração normal, o que leva a que o ar fique “aprisionado” dentro dos pulmões – isto é conhecido por enfisema senil.

Ocorre igualmente uma diminuição do nível de antioxidantes na via aérea, ficado esta mais desprotegida contra os agentes nocivos existente no ar que inspira, como o ozono ou o óxido nítrico. Isto também contribui para que os idosos sejam mais suscetíveis a infeções respiratórias e consequentemente um declínio mais acelerado da função pulmonar.

Como já deve ter reparado a respiração como mecanismo é prejudicada no seu todo com o avançar da idade. O volume de ar que respira normalmente pode apresentar uma diminuição de até 40% e a capacidade de conseguir expulsar o ar também sofre uma redução considerável. Isto pode afetar-lhe apenas quando tem que fazer uma corrida ou uma caminhada mais intensa, mas para outras pessoas pode ser o sinónimo de muita dificuldade em respirar e incapacidade até a realizar pequenos movimentos. A capacidade de resposta aos broncodilatadores, uma das medicações usadas na DPOC, parece diminuir à medida que ficamos mais velhos, contribuindo para agravar ainda mais as queixas de quem tem a doença.

Com o envelhecimento instala-se uma maior tendência para a imobilidade e uma menor prática de exercício físico o que, associado a malnutrição ou outras doenças, diminui a performance respiratória da pessoa idosa, uma vez que é difícil separar e individualizar todos estes processos e dificilmente o organismo funciona bem quando um dos seus componentes falha, principalmente quando se trata de um tão importante como os pulmões.

Concluindo, envelhecer tem os seus pontos positivos e importantes, mas para os pulmões o panorama não é tão sorridente e auspicioso: a reserva do sistema respiratório diminui com o aumento da idade, diminuindo também a sua resposta em relação às alterações no valor de oxigénio e de dióxido de carbono no sangue, tornando o idoso mais vulnerável à falência respiratória, sobretudo em estados de maior exigência, como em casos de insuficiência cardíaca ou pneumonia, precisamente quando seria mais importante.

De qualquer modo, ganhar cabelos brancos ou passar a estar mais próximo de se fazer cem primaveras não tem que ser um pesadelo. O reconhecimento dos efeitos do envelhecimento no sistema respiratório é importante para que se compreenda melhor o que ajuda a acelerar a sua degradação e perceber como se pode evitar ou diminuir esse declínio, para que consiga viver a sua vida com as menores dificuldades possíveis. E ao mesmo tempo permite que os médicos consigam adaptar melhor o plano terapêutico a si.