O efeito do envelhecimento na saúde respiratória

Ser velho piora a respiração?

A mortalidade decorrente das doenças respiratórias tem atingido progressivamente grupos etários com idades mais elevadas. A taxa de internamentos e óbitos por doenças respiratórias ocorre sobretudo a partir dos 65 anos em todas as regiões do país, e são mais frequentes no género masculino. A partir dos 75 anos a taxa de mortalidade por doenças respiratórias aumentou de forma muito acentuada, sendo a partir dos 85 anos cerca de vinte vezes superior à taxa de mortalidade global, considerando todas as faixas etárias. Isto são os dados oficiais do nosso país.

Pensa-se que o aparelho respiratório seja o sistema do organismo que envelhece mais rapidamente, uma vez que, para além do processo biológico e natural do envelhecimento, constitui uma das principais interfaces entre os ambientes externo e interno, pelo que, está continuamente exposto a agressões e partículas que o prejudicam ao longo dos anos.

O conhecimento e identificação dessas modificações é indispensável para a prevenção, detecção e tratamento de disfunções respiratórias em idosos.

Este sistema, com o avançar da idade, sofre modificações: anatómicas, fisiológicas e imunológicas. Essas alterações têm repercussão na capacidade ventilatória, algumas das quais poderão tornar-se permanentes.

Em termos anatómicos, o processo de envelhecimento modifica o tórax, diminuindo a compliance da parede torácica. A osteoporose, muito prevalente em idosos, leva à diminuição da altura dos corpos vertebrais resultando numa cifose acentuada. Por outro lado, o espessamento da caixa torácica devido à calcificação das costelas limita a expansão desta durante a inspiração, e coloca o diafragma (o principal músculo respiratório) em desvantagem mecânica para realizar o seu trabalho efetivamente. Existe também uma diminuição da capacidade de libertação eficaz de secreções, produzidas em maior quantidade na população idosa. A diminuição da massa muscular que auxilia na ventilação também ocorre com o avançar da idade, o que prejudica, por exemplo, o reflexo da tosse, mecanismo essencial para uma competente clearance das vias aéreas.

Por volta dos 50 anos de idade, inicia-se o processo de degradação homogéneo das fibras elásticas envolventes ao alvéolo, levando ao alargamento do espaço aéreo, o que leva ao encerramento prematuro das pequenas vias aéreas durante a respiração normal, resultando em retenção de ar dentro dos pulmões – algumas pessoas chamam a isto de enfisema senil.

Por outro lado, ocorre uma diminuição do nível de antioxidantes na mucosa das vias aéreas e com a exposição a agentes nocivos como o ozono, óxido nítrico e matéria particulada, existentes no ar ambiente, o organismo fica menos preparado para se defender delas. Por este motivo,  os idosos são mais susceptíveis a infeções respiratórias ocorrendo, por consequência, um declínio mais  acelerado da função pulmonar.

A resposta aos níveis mais baixos de oxigénio ou à elevada pressão de dióxido de carbono também está marcadamente alterada nos idosos, devido a uma resposta do sistema nervoso menos apta e eficaz na ativação dos músculos respiratórios. Em termos fisiológicos, existe uma diminuição do volume de ar que respira normalmente e fica mais difícil expulsar o ar durante a expiração.

Com o envelhecimento também se verifica uma maior tendência para a imobilidade e menor prática de exercício físico o que, associado a estados de malnutrição, diminui a performance respiratória do idoso. Estas condições determinam fraqueza muscular generalizada que afeta também os músculos respiratórios, tornando-os mais facilmente fatigáveis e conduzindo a alterações na mecânica pulmonar.

Portanto, a reserva do sistema respiratório diminui com o aumento da idade, diminuindo também a sua resposta em relação à alterações nos níveis de oxigénio e dióxido de carbono tornando o idoso mais vulnerável à falência ventilatória, sobretudo em estados de maior exigência, como em casos de insuficiência cardíaca, pneumonia, etc.

O reconhecimento do envelhecimento do sistema respiratório é importante para que situações patológicas sejam prevenidas e reconhecidas o quanto antes, permitindo um tratamento cada vez mais atempado e eficaz, em idosos.

O DPOC.PT agradece a colaboração da Dra. Diana Oliveira (Medicina Interna e Geriatria)