Enfisema Pulmonar

O temido Enfisema Pulmonar

As vias aéreas terminam inferiormente numas estruturas que quando juntas se assemelham a um cacho de uvas, sendo que a cada uma dessas “uvas” se chama de alvéolos. Cada alvéolo tem uma parede muito fina que as separa entre si, apenas com uns poros muitos pequenos que fazem a ligação entre eles. Quando olha para um cacho de uva no supermercado ou numa vinha, está tudo muito organizado e cada uva está no seu sitio, arredondada e bem limitada. No pulmão sem doença cada alvéolo tem o seu tamanho e uma estrutura normal.

Mas numa pessoa com Enfisema Pulmonar temos um pequeno problema: por variadas razões pode existir um aumento permanente e anormal de cada alvéolo. Este crescimento condiciona uma alteração na estrutura das suas paredes, que deixam de ser bem definidas, e pode levar a destruição do próprio alvéolo. Trata-se então de uma alteração na estrutura normal de um constituinte importante da árvore respiratória, o que vai provocar algumas complicações incómodas que podem ser preocupantes.

A perda das paredes alveolares é dramática porque é nesta superfície que estão os pequenos vasos sanguíneos que contribuem para as trocas gasosas com o ar inspirado – deste modo fica mais difícil para os pulmões oxigenarem o sangue e eliminarem o dióxido de carbono (CO2) na expiração. A expulsão do CO2 é essencial, uma vez que valores acima do normal no sangue estão associados a uma multiplicidade de efeitos deletérios na sua saúde de que lhe irei falar mais à frente.

Para além disso, estas alterações também dificultam a respiração, pois não irá conseguir expirar normalmente, o que leva a uma acumulação de ar dentro dos pulmões, como se estivesse preso (o que os médicos chamam de hiperinsuflação). Este ar acumulado vai agravar e aumentar mais ainda o esforço que é necessário exercer, principalmente pelo diafragma, para que consiga respirar.

Até parece que estamos sempre a repetir-nos, mas também aqui o consumo de tabaco é o principal culpado – corresponde a cerca de 80-90% dos casos, principalmente se a pessoa fumar muitos cigarros por dia ou há vários anos. Nos restantes casos, pode estar relacionado com a inalação de outros produtos, como os fumos da poluição, drogas ou gases industriais e tem ainda uma importante componente genética, principalmente em pessoas mais jovens.

 

Os sintomas do Enfisema Pulmonar

Uma pessoa com Enfisema pode queixar-se de falta de ar, o que em muitos casos vai agravando progressivamente até que a impeça de realizar inclusivé atividades simples, como levantar-se, caminhar ou tomar banho no chuveiro. Outros sintomas comuns são a dor no peito ou nas costas, a tosse ou a respiração ruidosa, conhecida como pieira. Estes sintomas não são exclusivos do Enfisema, por isso é possível que a doença passe despercebida, seja confundida com outra ou associada como uma consequência normal de ser fumador, não sendo valorizada.

Encontramos esta doença principalmente em pessoas com mais de 40 anos, mas dependendo da sua relação por exemplo com o tabaco, pode aparecer um pouco antes. Em alguns casos só com uma idade mais avançada as pessoas sentem na pele o impacto da doença.

 

Como se faz o diagnóstico do Enfisema Pulmonar?

Em casos muito graves e evidentes basta a observação de uma Radiografia do Tórax para se suspeitar se uma pessoa tem Enfisema ou não. No entanto, nem sempre é assim tão claro e por isso é necessário recorrer a outras opções diagnósticas. Por isso, não se assuste se lhe for pedido para fazer uma TAC Torácica, que é o exame que permite ver com mais detalhe as alterações torácicas compatíveis com a presença de Enfisema.

Poderá ser também requisitada uma avaliação funcional respiratória (por exemplo, uma Espirometria ou a Pletismografia), que avalia a gravidade funcional da doença, ou seja, se já apresenta alterações nas capacidades ou volumes pulmonares. É importante que o seu impacto na capacidade respiratória seja vigiado regularmente.

Tal como referimos quando falámos na Bronquite Crónica, o seu médico irá observá-lo, auscultar e fazer bastantes perguntas para perceber o que poderá ter provocado estas alterações. Não se trata de um inquérito policial, apesar de por vezes os médicos precisam de vestir a pele de Hercule Poirot e fazer suar as suas células cinzentas, visto haverem casos muito complexos. 

Sem entrarmos em detalhes aborrecidos, existem três tipos principais de enfisema, de acordo com a sua distribuição no pulmão: o centro-acinar, o paraseptal e o panacinar. O primeiro é o mais encontrado em fumadores.

 

Pode-se tratar o Enfisema Pulmonar?

Esta pergunta é feita por todos os doentes com Enfisema Pulmonar e custa sempre ter que responder que infelizmente a Medicina ainda não tem nenhuma forma eficaz de cura para oferecer. A destruição alveolar e as suas consequências no fenómeno respiratório são realmente irrevogáveis. O que a maioria dos médicos tenta explicar a cada pessoa com Enfisema é que com um bom cumprimento das medidas de controlo, a pessoa pode conseguir alguma melhoria da função pulmonar, aliviando os sintomas da doença e retardando o seu agravamento. Na maioria dos casos isso permite que consiga manter uma qualidade de vida razoável e continuar a trabalhar, viajar ou brincar com os filhos ou netos.

Uma das opções mais usadas é a prescrição de um ou mais inaladores que irão ajudar na dilatação das vias aéreas obstruídas, combatendo a diminuição do calibre dos brônquios e aliviando-o dos seus sintomas limitativos. Isto é importante, porque ajuda a eliminar o ar que fica retido, o que alivia um pouco os músculos do esforço excessivo para respirar e ajudam a que tenha menos queixas. Quanto à destruição das paredes, ainda estamos de mãos atadas.

Em casos mais graves, o seu médico pode lhe dizer que precisa de fazer tratamento com Oxigénio em casa ou que deve iniciar um Programa de Reabilitação Respiratória, para que sinta menos queixas e para preservar a sua qualidade de vida.

Em certas situações, muito especificas, pode ser ponderada uma solução cirúrgica: a Cirurgia de Redução do Volume Pulmonar ou em último caso o Transplante Pulmonar. As suas indicações são muito restritas e apenas uma pequena percentagem dos doentes pode ser orientada para este tipo de terapêutica.

É “obrigatório” que pare de fumar e evitar estar em contato com o fumo do cigarro ou outro tipo de fumo.