Estigma social

Temos a certeza de que a maioria das pessoas consegue imaginar que a DPOC possa provocar uma grande incapacidade e debilidade respiratória e física, mas a maioria desconhece que um dos principais impactos é a nível psiquiátrico e emocional, e provavelmente mesmo que até conheçam esta relação não lhe dão grande relevância. A verdade é que para muitas pessoas ter DPOC é motivo de vergonha ou então de censura por parte de amigos e familiares, levando a um conjunto de consequências psicológicas e psiquiátricas que se podem enquadrar no âmbito do estigma social da DPOC.

Para começar, quando muitas das pessoas com DPOC precisam de carinho e força para vencer esta adversidade e tentam discutir com outras pessoas sobre a sua doença, sentem-se culpabilizados e criticados pelos próprios familiares ou amigos, pois uma grande parte da população ainda vê esta doença como sendo algo provocado e da exclusiva responsabilidade do próprio, quase como se fosse um crime, principalmente devido à sua relação com o consumo de tabaco.

Não há duvida de que fumar leva a muitos casos de DPOC, porém existem muitas pessoas que desenvolvem DPOC por razões diferentes, tais como doenças genéticas, poluição ou exposição a poeiras no local de trabalho. De qualquer forma, independentemente de como a pessoa desenvolve a doença, qualquer ser Humano merece ser tratado com respeito e dignidade por todos em seu redor, e isto ainda é mais imperativo quando se está a falar de uma pessoa doente e debilitada.

O estigma em torno da DPOC (e do tabagismo) afeta negativamente todos os envolvidos na assistência ao doente, mas essencialmente e perigosamente a pessoa que tem a doença. Devido a esta espécie de bullying estes doentes sentem-se menos motivados a procurar ajuda, porque ou já foram ou têm medo de ser criticados. Por outro lado, os profissionais de saúde têm dificuldade em obter informações dos seus doentes, porque eles receiam ser julgados e escondem a verdade ou os seus medos, o que também não contribui para ajudar à resolução do problema, porque os médicos não são adivinhos e precisam que seja honesto com eles para o poderem ajudar.

Existem dados que avaliaram como esta carga negativa associada à DPOC afetava a própria visão da doença por parte do doente: um estudo que avaliou indivíduos com DPOC revelou que mais de metade desses doentes (56 por cento) relataram uma forte carga emocional negativa associada com a doença, referindo que “muito frequentemente” ou “sempre” se sentiram sobrecarregados, oprimidos, deprimidos, isolados, derrotados, envergonhados ou com vergonha”.

Para iniciar esta mudança de visão e estigma social em torno da DPOC, os médicos e restantes profissionais de saúde devem, em primeiro lugar, compreender a situação dessas pessoas, e evitar culpabilizar o doente, principalmente se este já abandonou o tabagismo, por exemplo. É muito mais importante procurar formas de ajudar o doente a se sentir melhor, demonstrando-lhe que não está a ser julgado. Por isso temos falado no DPOC.PT várias vezes da importância de uma boa relação médico-doente. Confie no seu médico e provavelmente não se vai arrepender, e os profissionais de saúde também vão “cumprir a sua parte do acordo”.

Também pode ser importante para si conversar com outros doentes uma vez que isto poderá ajudar a que ganhe progressivamente mais confiança e coragem para começar a discutir a sua doença de uma forma mais aberta e honesta. É verdade que não há uma rede de grupos de apoio bem instituída como noutros países, mas pode contactar algumas das organizações que destacamos umas páginas à frente ou então encontrar o ombro amigo nas redes sociais, por exemplo, na da DPOC.PT, onde encontra centenas de doentes que gostam de saber mais e discutir a doença. Vai ver que no final sentir-se-á mais aliviado e mais bem-disposto.

Concluindo, o efeito do estigma social num doente com DPOC pode ser tão debilitante quanto a própria doença. Aprender a reconhecer o estigma e superá-lo vai ajudar a todos, desde os doentes aos médicos e familiares.