Exposição ocupacional

Alguns dos doentes que chegam à consulta de Pneumologia com queixas de falta de ar, tosse e pieira trabalharam a vida inteira em empresas ou fábricas em que estão expostos a madeiras, tintas, fumos ou pós. Estou a falar de pessoas que trabalham nas aéreas da construção civil, pedreiras ou empresas do setor das madeiras. Na realidade atual da sociedade Portuguesa em nos deparamos com uma taxa de desemprego bastante elevada e uma enorme dificuldade em arranjar novos empregos, é difícil explicar a uma pessoa que deve deixar o seu local de trabalho e ficar sem um rendimento financeiro fixo e estável, pondo em risco a vida e estabilidade familiar. Cada vez mais a Medicina tem que ter uma preocupação e enquadramento social em todas as suas vertentes, uma vez que estamos a falar de pessoas. No entanto, ao mesmo tempo, o perigo não desaparece e é necessário ter este fato em consideração e fazer o máximo para o evitar e programar a melhor maneira de viver satisfatoriamente com este risco.

Chamamos de exposição ocupacional respiratória aos riscos inalatórios durante ou devido à profissão que a pessoa ocupa, e podem ser decorrentes do trabalho diretamente efetuado pela pessoa ou então ao local onde a labuta diária é realizada, como por exemplo em empregos que necessitem que o trabalhador esteja localizado numa gruta ou uma pedreira.

Na DPOC cerca de 30% dos casos não relacionados com o tabaco são atribuídos a este risco ocupacional, o que significa que não é assim tão raro. E muitos doentes que fumam também têm profissões de risco, agravando ainda mais o risco do desenvolvimento e a rapidez da evolução da doença. Ou seja, é preciso dar a devida atenção a este tema e saber se a pessoa com DPOC está em risco. Em alguns casos, existirá uma consulta de Medicina do Trabalho, onde poderá colocar questões e desenvolver o melhor plano de proteção e evicção.

As pessoas que têm profissões em que seja necessário trabalhar em túneis ou grutas são das mais afetadas. Isso deve-se à inalação de poeiras ou partículas como a sílica ou o quartzo. Estas partículas não provocam só DPOC, mas podem levar a doenças como Silicose ou o Cancro do Pulmão. Tal como o fumo do tabaco, esta sujidade irá ser inspirada juntamente com o ar e vai ficar depositada nos seus pulmões, uma vez que é difícil de ser eliminada na expiração, provocando a inflamação crónica dos brônquios com a eventual cicatrização e perpetuação da limitação.

Também as pessoas que trabalham com metais ou ferro podem inalar poeiras e fumos tóxicos. Alguns estudos revelaram que o seu impacto na doença foi tão grave como o efeito provocado pelo fumo do tabaco. E claro que trabalhadores da construção civil também estão em risco, lidando com areias, metais, ferro e outros. Não se deve esquecer que o amianto também pode provocar DPOC, mas podem demorar várias décadas até aparecerem os primeiros sintomas.

Agricultores, trabalhadores de fábricas de roupa, padeiros ou mesmo cabeleireiros, estão em contato com vários tipos de agentes irritantes orgânicos ou biológicos. Nem todos terão acesso facilitado a apoio médico no âmbito da Medicina do Trabalho, pelo que nestes casos o seu médico de família terá um papel fundamental e deve estar atento e saber quando deve referenciar o doente. Se trabalha numa destas profissões e sente alguns dos sintomas que já falámos (e que vamos ainda explorar mais), exponha a sua situação ao seu médico.

É importante reforçar que este risco pode ser diminuído com a utilização de medidas preventivas, tal como as máscaras de proteção individual. Infelizmente, e pelo que tenho visto em alguns dos meus doentes, alguns não utilizam esta proteção, seja por não estarem disponíveis, o que é de lamentar, ou pelo fato de serem desconfortáveis ou incomodativas para algumas pessoas.  E claro que muitas não a usam por não darem a relevância devida ao efeito que estes pós ou poeiras possam ter no pulmão ou mesmo por total desconhecimento.

Lembre-se: A utilização de uma máscara de proteção individual é indispensável para quem trabalha em profissões de risco para desenvolver DPOC.