A importância da nutrição

A Nutrição é um tema fundamental em muitas doenças e também o é na DPOC – para nos ajudar a compreender melhor esta temática contamos com a colaboração da Nutricionista Maria Paes de Vasconcellos, que tem vasta experiência com doentes a realizar Reabilitação Pulmonar devido a DPOC.

É através da alimentação que o organismo obtém a energia (“o combustível”) que o corpo necessita para realizar todas as atividades, incluindo a respiração, e os nutrientes (“as peças”) para a construção do corpo, que está em constante renovação. Durante o metabolismo, os nutrientes e o oxigénio, entre outros, são transformados em dióxido de carbono e em energia, que será utilizada nas diversas atividades essenciais ao corpo humano.

Ao contrário do que é comum pensar, a necessidade de uma melhor alimentação não está relacionada apenas com a necessidade de perder peso. A própria Direção Geral de Saúde refere que os fatores de risco que mais contribuem para o total de anos de vida saudável perdidos pela população portuguesa são os hábitos alimentares inadequados (19%), a hipertensão arterial (17%), o excesso de peso (13%) e o tabagismo (11%). Ou seja, quem tem um peso normal, tem de ter os mesmos cuidados alimentares, pois um peso saudável não protege de tudo!

Frequentemente os doentes com DPOC têm até um peso inferior ao desejado e/ou menor massa muscular. Isto deve-se, em grande parte, ao estado inflamatório típico da doença, que aumenta o catabolismo basal, consumindo as reservas que o corpo humano guarda, na forma de gordura, e chegando a usar até as proteínas, que são a base dos músculos. Ora, são estes músculos que permitem que o sistema respiratório funcione, e “queimá-los” é uma má opção, tal como seria um automóvel que, para não parar, transformasse o carburador em combustível.

O risco de desnutrição é uma preocupação comum entre quem tem DPOC e que perde uma quantidade excessiva de peso e força muscular. Para saber se o seu peso está adequado, o Índice de Massa Corporal (IMC) calcula-se com uma conta muito simples: divida o seu peso (em quilogramas) pela altura (em metros), e divida o resultado de novo pela altura (em metros), ou seja, P(kg)/A2(m). O valor ideal está entre 18,5 kg/m2e 25 kg/m2. Existe excesso de peso entre 25 e 30kg/m2 , e obesidade acima dos 30 kg/m2. Mas o ideal é identificar o risco antes de chegar ao baixo peso, e emagrecimentos rápidos devem ser corrigidos imediatamente, mesmo que o peso ainda seja “normal”. Se perder 5% do seu peso num mês (p. ex. alguém com 70-80kg perder 3,5-4 kg) tem de procurar ajuda para que se perceba o que se passa consigo.

A literatura atual mostra que a DPOC é uma doença que não afeta apenas os pulmões, mas também pode ter consequências em outros órgãos, bem como resultar em perda grave de peso e/ou menor força muscular. A perda de peso, principalmente de músculo, podem afetar a respiração, como já referido, reduzindo a força e a função de todos os músculos,  incluindo os respiratórios, traduzindo-se em menor eficiência funcional. O diafragma é um dos músculos mais afetados, e este é, apenas e só, o músculo mais importante na inspiração. Os músculos respiratórios podem exigir 10 vezes mais calorias do que aqueles de uma pessoa sem DPOC – o consumo calórico extra necessário pode chegar a 600-800 calorias/dia!

É por isso necessário que exista um aporte calórico suficiente, para evitar que fique fraco ou com baixo peso, o que está associado a um prognóstico da doença menos favorável. E atenção, não estamos a dizer que tem que ficar obeso, apenas deve adequar a sua alimentação aos seus consumos energéticos.