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A influência do sexo e da idade

Se questionarmos num grupo se a DPOC é uma doença de pessoas mais idosas, a maioria irá dizer que sim. Vamos ver de seguida que é uma ideia cada vez mais errada, pois a DPOC não é uma doença geriátrica.

Antes de mais, é preciso dizê-lo: A DPOC afeta sobretudo pessoas com mais de 40-50 anos e a maioria tem mesmo mais de 70 anos, mas gostava que ficasse com a ideia de que não é uma doença apenas dos mais vividos. De fato, tenho reparado que na consulta aparecem cada vez mais doentes jovens e que eram até então completamente saudáveis, e estes têm alguma dificuldade em aceitar esta nova realidade. Nestas pessoas mais novas, o desenvolvimento de DPOC está normalmente associado a défices genéticos ou a uma história de exposição profissional.

De qualquer forma, é fácil de perceber porque a doença atinge principalmente as pessoas mais velhas. A DPOC é o resultado de um acumular de vários anos de exposição ao tabaco, fumos, poluentes industriais ou outros agentes irritantes, que provocam lesões inflamatórias que vão sendo combatidas pelo próprio organismo, mas que com a diminuição dessa capacidade defensiva devido ao envelhecimento, existe uma acumulação de tecido cicatricial, bem como uma menor capacidade de contrariar a contração do músculo da parede brônquica. Desta forma, é promovido o estreitamento das vias aéreas e a obstrução à saída do ar acontece, traduzindo o fato de que os pulmões envelhecem consigo.

Relativamente a qual o sexo mais afetado pela doença, nenhum deles é considerado fator de risco para se desenvolver DPOC, ao contrário do que se pensava inicialmente. Até há vários anos achava-se que afetava mais os homens, pois antigamente o tabagismo era mais acentuado no sexo masculino, mas os números mais recentes apontam para um equilíbrio. No entanto, nem todos concordam com isto. Alguns autores referem que agora as mulheres são mais propensas a ter DPOC e que existe uma maior incidência desta doença nas mulheres. Explicam esta diferença com base numa maior sensibilidade delas ao fumo do tabaco, a possíveis fatores genéticos, a uma imunidade menos eficaz, entre outras razões.

 

A situação económica tem um papel?           

De uma forma global existe uma maior prevalência de DPOC em pessoas com baixos rendimentos económicos. Provavelmente não está a perceber qual é a explicação, mas existem duas razões frequentemente apontadas para isto acontecer: Primeiro, existe uma maior incidência do tabagismo em pessoas economicamente mais desfavorecidas, o que não deixa de espantar tendo em conta quanto custa cada maço de tabaco, mas os números e os dados não enganam. Segundo, este grupo está mais exposto aos fumos e a outros tipos de poluição ambiental, quer por viverem em zonas menos protegidas ou porque as suas casas têm piores condições habitacionais quer pelo risco profissional – é mais provável encontrar-se pedreiros ou trabalhadores da construção civil a viver em bairros operários do que no Parque das Nações ou na Foz do Porto.

Devido aos custos elevados dos fármacos e inaladores que são a base do seu tratamento de manutenção da DPOC ou por dificuldade em pagar o transporte para vir a uma consulta, infelizmente existe uma menor adesão à terapêutica por esta franja da população. Sem tratamento adequado, a doença progride mais rapidamente, pelo que estas pessoas costumam ter uma evolução da doença mais acelerada.

O mais preocupante nestes dados é que vivemos numa época de grande constrangimento financeiro e em que o número de pessoas com dificuldade económica está a aumentar, o que pode criar um ambiente social e pessoal que promove vários fatores de risco, seja a má alimentação por dificuldade em comprar comida fresca e porque o fast-food é rápido e barato,  seja o aumento do consumo de tabaco para esquecer os problemas e a depressão ou mesmo a necessidade de aceitar empregos precários em condições muito desfavoráveis.

 

Alterações no desenvolvimento pulmonar

Já pensou porque os médicos são tão obcecados e chatos a tentar demover as futuras mães a parar de fumar durante a gravidez? Quando uma mulher fumadora engravida é imediatamente aconselhada pelos médicos a deixar de fumar. Isto deve-se, para além dos óbvios benefícios para a saúde da mulher, ao conhecido efeito do tabaco sobre o desenvolvimento do feto, principalmente, ao nível da formação dos órgãos respiratórios. O papel protetor materno começa cedo, nomeadamente com a decisão de parar de fumar, o que é fundamental para a saúde da futura criança.

A ocorrência de várias infeções pulmonares durante a infância ou se o parto foi prematuro (antes das 38 semanas de gestação) podem promover alterações na dinâmica pulmonar, o que eventualmente predispõe ao desenvolvimento da DPOC ou de outras doenças das vias aéreas. Estas alterações podem corresponder a consequências estruturais pulmonares que facilitam o crescimento de bactérias e o aparecimento de infeções, sendo que  muitas vezes não existem evidentes manifestações na juventude, só dando sinal umas décadas mais tarde.  A exposição ao fumo do tabaco dos pais, em casa ou no carro, ou à poluição da cidade ou das fábricas, pode ser responsável por alterações graves na função pulmonar e no próprio pulmão, por isso, é importante que os pais tenham o máximo cuidado para proteger as suas crianças.

 

O papel da Asma

A Asma é uma doença respiratória de que certeza já ouviu falar, seja na televisão, numa revista ou mesmo porque conhece alguém que a tenha. A maioria das pessoas associa-a a uma doença de crianças e adolescentes, pelo que pode estar a pensar “o que tem isto a ver com a DPOC?”. No entanto, sabemos que existe Asma em pessoas mais idosas, incluindo pessoas que nunca a manifestaram em criança! Na realidade, apesar de serem duas doenças diferentes, elas têm semelhanças e em certos casos poderão estar sobrepostas. E não duvide que às vezes é uma tormenta perceber qual delas a pessoa tem.

O seu sintoma ou sinal principal é a pieira, que é um som agudo parecido a um assobio que se ouve durante a respiração e que é provocado pela passagem do ar nos brônquios que ficam obstruídos. Uma pessoa asmática também costuma sentir falta de ar, dor no tórax, para além de outros sintomas menos frequentes, como a tosse seca, o batimento cardíaco acelerado ou dor de cabeça. Normalmente, estas queixas são provocadas e mais frequentes durante exacerbações agudas, quando a doença deixa de estar controlada. Existem vários fatores agravantes conhecidos, desde o pólen, a poluição, o frio ou o calor extremo, o ar seco entre outros. Para muitos asmáticos o inicio da primavera é um período que lhes provoca muitos pesadelos.

Nesta fase deve estar a pensar que a Asma é muito parecida com a DPOC, não é? Realmente, são ambas doenças pulmonares obstrutivas (impedem o ar de sair dos pulmões) e os sintomas e a maioria dos fatores agravantes são muito semelhantes. Para os médicos é importante distingui-las pelas diferenças ao nível do seu tratamento e de como condicionam a saúde do doente a longo prazo.

Para as distinguirmos é fundamental que realize uma Espirometria com Prova de Broncodilatação – vamos falar deste exame noutro capítulo, mas permite perceber se a obstrução é variável por um quadro principalmente inflamatório (Asma) ou se é pouco ou nada variável, traduzindo na maior parte dos casos alterações brônquicas permanentes (DPOC). Para além disto, os sintomas da Asma costumam ser menos constantes e ter uma variabilidade maior, ou seja, uma pessoa pode ter longos períodos com queixas ligeiras ou mesmo sem sintomas, e ter umas semanas com alguns dias bastante mais chatos. Na DPOC, normalmente existe uma regularidade no quadro clinico, existindo quase sempre algum sintoma todos os dias, como se fosse um lembrete diário de que sofre com a doença.

A questão da relação entre a Asma e a DPOC é ainda controversa e alvo de debates, por vezes quentes, sobre a ligação entre as duas doenças, não sendo o nosso objetivo pormenorizá-la. Apesar de ser discutível, alguns entendidos consideram que a Asma pode ser um fator de risco para o desenvolvimento da DPOC, nomeadamente se a pessoa for fumadora. Suspeitamos que a Asma, embora seja uma doença obstrutiva reversível e variável, possa tornar-se menos reversível e com sintomas mais frequentes e diários após vários ciclos de inflamação e de consequente resposta protetora do organismo, que condicionam alterações permanentes na parede das vias aéreas. Apesar de não ser cientificamente correto, pode entender isto como se em alguns casos a DPOC se tratasse de uma evolução da Asma.