Oxigénio

Alguns dos doentes que recorrem a uma consulta de controlo pela sua DPOC continuam a apresentar queixas de falta de ar e cansaço, e na gasometria arterial verifica-se que o nível de oxigénio no sangue é bastante inferior ao normal, por vezes com níveis surpreendentemente baixos. Isto é preocupante porque desse modo não irá ocorrer a oxigenação dos músculos e das mais variadas células do corpo e, mais tarde ou mais cedo, a máquina vai deixar de funcionar.

E isto significa o quê? Basicamente, está explicado porque tem mais falta de ar, menos força e energia, mais cansaço e esta diminuição do “combustível do seu corpo” pode levar a problemas no sistema cardiovascular, entre outros. Em algumas pessoas com DPOC este valor de oxigénio é tão baixo que entra dentro dos critérios para iniciar Oxigénio em casa. A maior parte das pessoas, quando são informadas de que têm que começar a fazer Oxigénio em casa ficam bastante assustadas: ainda existe na cabeça de muita gente uma associação entre precisarem deste tratamento e entrarem na fase terminal da sua vida, o que não é necessariamente verdade, como vamos ver.

Nesta altura já percebeu que alguns dos doentes com DPOC, principalmente os com um grau mais avançado, vão necessitar de fazer Oxigénio de um modo continuado, provavelmente para toda a vida – se os valores voltarem ao normal, pode deixar de ser necessário realizar mais este tratamento.

Isto acontece, pois, apesar de inspirarem normalmente o oxigénio que existe na atmosfera, este, por vários fatores, não é capaz de passar a 100% para os capilares que rodeiam os alvéolos, resultando em baixos níveis de oxigénio no sangue – o que chamamos de hipoxémia. Ao fornecer-se um débito superior de oxigénio consegue-se melhorar um pouco esse valor, e dessa forma aliviar a falha na oxigenação de todos os tecidos e órgãos do seu corpo. O ser humano não consegue guardar ou ter reservas de oxigénio, pelo que nestes casos, é necessário que faça Oxigénio durante todo o dia, ou pelo menos, 15 horas/dia, englobando o período noturno. É essencial que quando está a dormir mantenha o Oxigénio.

 

Quais os beneficios?

O corpo humano é uma obra de arte magnifica preparada para aguentar e vencer a maior parte dos obstáculos e a verdade é que os níveis baixos de oxigénio motiva o organismo a reagir de forma a contrariar os seus efeitos, e durante algum tempo consegue mesmo aguentar e manter o fornecimento adequado de oxigénio, através do aumento dos batimentos cardíacos ou da produção da eritropoietina. Estes mecanismos compensatórios funcionam bem a curto prazo, mas após algum tempo deixam de ser suficientes para acompanhar as suas necessidades e este equilíbrio desfaz-se.

Este aporte extra de oxigénio consegue um efeito único na melhoria da sobrevida de quem tem DPOC, na capacidade de realizar exercício, na qualidade do sono e na capacidade de realizar as atividades da vida diária. Está também associado a diminuição da pressão de artéria pulmonar, ou seja, ajuda a evitar o agravamento da hipertensão pulmonar, uma das consequências mais preocupantes da DPOC.

As vantagens do uso de Oxigénio são tantas que compensam o risco do aumento da retenção de dióxido de carbono, devendo-se, no entanto, avaliar essa hipótese com muito cuidado: em palavras simples, os doentes com DPOC têm normalmente o valor de Dióxido de Carbono (CO2) aumentado, o que em teoria faria aumentar o número de ciclos respiratórios por minuto da pessoa, de forma a eliminá-lo o mais rápido possível. O problema é que em doentes que já têm a doença há vários anos, o organismo já está habituado a esse valor elevado e fica dependente apenas do valor de oxigénio para saber quando e a que ritmo deve respirar. Se estamos a fornecer Oxigénio em quantidades elevadas, esse aumento excessivo pode levar a uma depressão do sistema respiratório, pois já não é preciso haver esforço respiratório para oxigenar melhor o sangue. Por isso, antes de instituir esta terapêutica, o seu médico vai realizar uma gasometria arterial, para avaliar os gases (O2e CO2) e o equilíbrio ácido base. A picada pode dar uma pequena dor, mas é mesmo importante!

Este parágrafo seguinte é muito importante! Alguns doentes ficam ligeiramente aborrecidos connosco (médicos) porque dizem que têm falta de ar e que o que precisam é de fazer oxigéniO em casa, mas nós não o prescrevemos. Apesar de se compreender perfeitamente que possa ter algumas dificuldades a respirar, todas as indicações internacionais e as normas orientadoras portuguesas referem que a dispneia, também conhecida como falta de ar, não é critério por si só para realização de Oxigenoterapia. E isto é positivo, porque significa que ainda não tem uma doença muito grave. Com ajuste da terapêutica de controlo, na maior parte dos casos conseguimos melhorar essas queixas de falta de ar e irá sentir-se melhor.

 

Como fazer Oem casa

Depois de ser decidido que tem que fazer O2, partimos para outra etapa também importante. O Oxigénio é um medicamento, e tal como todos os outros, tem efeitos positivos importantes, mas que pode trazer algumas complicações, os chamados efeitos adversos ou riscos de utilização. Não é de venda livre, sendo obrigatório que seja prescrito por um médico após alguma ponderação. Na consulta ou após o internamento, receberá umas folhas com a “receita” ou, para sermos mais formais, a prescrição com o tipo de aparelho escolhido, o débito e o número de horas que deve fazer este tratamento por dia e também uma lista com todas as opções de empresas que fornecem este serviço, como a Linde®, Vitalaire®, Praxair®, entre outras. Em alguns casos, o médico contata telefonicamente ou terá que ser o doente a telefonar, para agendar a entrega do aparelho e a explicação de como funciona. Estas empresas têm serviço e apoio 24 horas por dia, por isso não se preocupe, pelo que se tiver qualquer problema rapidamente ele será/deverá ser resolvido.

Através do Sistema Nacional de Saúde todo o tratamento é comparticipado por inteiro, ou seja, não tem custos diretos para o consumidor, neste caso o doente. É um esforço muito importante para o orçamento da Saúde, e no fundo para todos os Portugueses, e que deve ser tomado em conta por cada doente que começa a fazer este tratamento. Em relação a gastos com a eletricidade, questione a empresa escolhida para um esclarecimento mais completo, mas existe alguma compensação pelo custo elétrico da utilização do aparelho. Não há motivo nenhum para não realizar este tratamento todos os dias e pelo menos as horas indicadas pelo médico. Sabia, que na maioria dos países do mundo este tratamento é cobrado aos seus utilizadores? Aproveite! Numa nota mais pessoal, fico sempre um pouco aborrecido quando um doente a quem lhe prescrevi o Oxigénio deixa de cumprir, principalmente quando lhe recordo de que quando fazia as coisas direitinho, essa pessoa andava bem e sem grandes queixas.

 

Tipos de Oxigénio no domicilio

Conforme está descrito pela DGS “A escolha do equipamento para Oxigenoterapia domiciliária deve basear-se não apenas nos valores da gasometria arterial, mas, também, na facilidade de utilização do aparelho, na idade da pessoa, na sua mobilidade, na capacidade de compreensão do tratamento pelo doente e seus familiares/cuidadores, nas condições de habitação e no débito prescrito.”

Existem vários formatos de fornecimento de OLD (Oxigénio de Longa Duração) aos doentes: Gasoso, Liquido e o Concentrador.

 

Oxigénio Gasoso

O Oxigénio está armazenado no formato gasoso, que se encontra comprimido dentro de cilindros, que têm diferentes tamanhos, podendo ser guardado dessa forma durante muito tempo, sem qualquer perda ou desperdício. No entanto, pelo seu custo elevado e por ser pouco prático, visto que ocupa muito espaço e é pesado, tem vindo a ser cada vez menos usado. O preço pode ser explicado também por toda a estratégia organizacional necessária para suportar os pedidos, transporte e entrega do oxigénio até a residência da pessoa e as dificuldades e o custo elevado destes procedimentos.

Apesar destes inconvenientes e de já raramente ser prescrito, ainda tem utilidade em doentes que necessitem de débitos de oxigénio mais altos, apesar de que existem novidades que em breve podem fazer esquecer este método de administração de Oxigénio definitivamente.

 

Concentrador

Estes aparelhos, que podem ser portáteis ou não, filtram o ar ambiente, retirando o Nitrogénio, e dessa forma permitem fornecer Oxigénio quase puro, a um fluxo constante e confortável. Os dispositivos funcionam através de energia elétrica. É cada vez mais o método preferido e o mais usado para fornecer Oaos doentes em casa.

Oxigénio liquido

Neste caso, o gás fica armazenado em estado liquido, a temperaturas negativas, e quando é transportado para recipientes mais pequenos acontece uma reação química que o transforma do estado liquido a gasoso. De uma forma geral são constituídos por um reservatório estacionário (com cerca de 4 a 12 dias de autonomia) e um reservatório portátil para que se possa deslocar (com cerca de 4h a um débito de 3L/minuto).

O doente deve aprender a encher corretamente o seu reservatório portátil e saber a conduta a seguir em caso de problema técnico (o congelamento que pode provocar a aderência do equipamento portátil ao estacionário). Há que ter em igualmente atenção ao desperdício por evaporação dos reservatórios principais. Este tipo de oxigénio é muito propicio a erros e a acidentes, pelo que necessita de um maior ensino do mesmo ao doente e um maior número de revisões técnicas.

É também um método um pouco caro, mas que tem algumas vantagens, nomeadamente por poder complementar-se com os aparelhos de Oxigénio portátil.

 

Oxigénio Portátil

Os tipos de oxigénio referidos anteriormente não permitem que a pessoa tenha uma autonomia de deslocação muito grande, no máximo alguns metros de distância. No entanto, alguns doentes ainda são ativos e precisam de realizar a sua vida diária pessoal ou profissional e costumam colocar esse problema na consulta. Nesses casos, e de acordo com certas condições definidas pelos Direção Geral da Saúde, o seu médico pode considerar que tem indicação para utilizar um aparelho portátil, que lhe permite durante algumas poucas horas ter apoio de oxigénio e diminuir a limitação. Para este efeito normalmente é utilizado um recipiente portátil de Oxigénio líquido ou um concentrador portátil.

Humidificação

Algumas pessoas precisam de fluxos de oxigénio muito elevados e isso pode provocar algumas lesões na mucosa do seu nariz, como por exemplo uma úlcera nasal. Neste caso, será prescrito um humidificador, que irá ajudar a impedir que isso aconteça.

 

Como é que o oxigénio passa do aparelho para mim?

Para além do aparelho ou da botija de gás, é necessário que se determine a melhor interface, ou seja, como se vai ligar a máquina à pessoa, de modo que o Oxigénio seja fornecido com a melhor eficácia, segurança e comodidade, o que também é obviamente muito importante. Não podemos pedir-lhe para cumprir com as nossas indicações e depois deixar-lhe com um método bastante desconfortável e pouco prático.

Existem várias opções disponíveis, mas as mais comuns podem variar desde os óculos nasais, a um tubo que é introduzido numa das narinas (sonda nasal) ou uma máscara que cobre a boca e o nariz. Os óculos nasais são a opção mais utilizada, mas se forem necessários débitos mais elevados costuma-se optar por uma máscara. Recentemente foram lançadas válvulas que permitem aumentar a duração do oxigénio portátil, uma vez que o oxigénio só é libertado durante a fase inspiratória.

 

Posso viajar?

Só porque precisa de tratamento com Oxigénio não precisa de abandonar o seu gosto por viajar. Pode deslocar-se de avião, carro, comboio ou barco se planear com antecedência – como já viu existem opções mais portáteis. Antes de fazer uma viagem de avião, é muito importante falar com seu médico sobre a necessidade de oxigénio durante o voo – o débito quando está a vários vários mil metros de altura não é o mesmo do que quando está em terra firma. Precisa de saber as condições da sua companhia aérea, para isso visite o seu site, ou então o DPOC.PT, onde temos um resumo do que precisa de saber para conseguir viajar com Oxigénio.

Nos restantes meios de transporte, por motivos de segurança, solicite assentos na área para não-fumadores. Para viajar de carro, não permita que se fume no carro.

 

Cuidados com o Oxigénio

Como já deve ter percebido, não pode fumar ou permitir que alguém fume perto do aparelho que lhe fornece o Oxigénio. Tenha também o cuidado de não deixar esse aparelho perto da cozinha, uma vez que a chama do fogão pode provocar uma explosão se estiver próximo da fonte de O2.

Não use produtos de limpeza e sprays enquanto estiver a fazer Oxigénio, não se esqueça que são produtos inflamáveis.

As fontes devem estar armazenadas em locais abertos e bem ventilados, sem o risco de caírem, principalmente no caso da fonte gasosa.