Perceber a espirometria

A Espirometria

 

Um dos grandes “problemas” dos profissionais de saúde é que nós podemos passar horas a falar do FEV1 ou da Capacidade de difusão do dióxido de carbono e da importância que isso tem para o diagnóstico e etc, mas quando chega aquele momento em que se diz a um doente “tem que fazer umas provas funcionais respiratórias” ou “precisamos de uma espirometria” o que lhe vem à cabeça ou o que lhe interessa é saber se o exame é doloroso ou se é difícil de realizar. Por vezes, e de forma involuntária acredite, nós pecamos por complicar as coisas e esquecemos-mos de que o que a maioria dos nossos doentes quer é ouvir em poucas palavras e de forma clara o que precisa de fazer. Para complicações já basta terem que viver com os sintomas e limitações da doença.

Por isso, relativamente aos exames que são necessários para o diagnóstico da DPOC, a conversa teórica do capítulo anterior é interessante e importante, mas o fundamental é que o nosso doente, ou neste caso o nosso leitor, perceba realmente para que serve cada exame e porque foi pedido. Mais uma vez refiro que não podemos exigir que cumpra com uma indicação se não lhe explicarmos correta e adequadamente para que serve, porque a pedimos ou como se realiza. É normal que tenha receios ou perguntas, principalmente se nunca tiver feito um exame deste tipo. Nesta página falamos sobre a Espirometria, mas para perceber mais sobre todos os exames que pode ter que realizar visite esta página.

Esperamos que este texto o ajude a preparar melhor para a realização deste exame, até porque são relativamente fáceis de tolerar e muito raramente apresentam complicações assinaláveis. Para tornar este capítulo o mais próximo possível da realidade, o DPOC.PT convidou uma cardiopneumologista (que é quem está a supervisionar este exame) para colaborar neste texto – a técnica Marisa Rodrigo, a quem agradecemos a disponibilidade.

 

Porque devo fazer a Espirometria?

É ou foi fumador? Sente falta de ar? Tem algum receio em subir escadas por dificuldade em respirar? Sente mais dificuldade em praticar desporto? Tem tosse persistente? Tem pieira? Tem expetoração constante?

Se a sua resposta a algumas destas perguntas é afirmativa, será importante avaliar como estão a funcionar os pulmões e as restantes vias aéreas. Apesar de não ser a doença respiratória não ser única culpada, muitos destes sintomas podem ser explicados por uma doença como a DPOC.

O exame mais básico é a Espirometria, o que permite num doente com DPOC:

  • Diagnosticar e acompanhar a evolução da doença.
  • Avaliar o grau de incapacidade pulmonar.
  • Determinar os efeitos da exposição ocupacional em doenças profissionais.
  • Identificar o risco para a realização de certos procedimentos cirúrgicos.
  • Avaliação da resposta ao tratamento.

Conforme tenho-lhe dito ao longo deste livro, o número de espirometrias realizadas ainda está bastante abaixo das expectativas de todas as entidades responsáveis pela Saúde no nosso país. Nos últimos anos têm sido propostas medidas para aumentar o acesso a este tipo de exames, nomeadamente ao nível dos Cuidados de Saúde Primários. Acredito que com o maior recurso a este exame, saberemos melhor quantas pessoas realmente têm DPOC em Portugal.

 

E como se faz a Espirometria?

O exame é realizado por um cardiopneumologista, que é o técnico de saúde especializado na realização das provas de função respiratória, entre outras. Seja num hospital pública ou numa instituição privada, será este profissional o responsável por receber e acomodar a pessoa, e de seguida procede a:

  1. Medir o seu peso e altura. Não é curiosidade ou coscuvilhice, é realmente importante sabermos estes dados para averiguar quais são os valores espirométricos normais para si, que dependem de muitos fatores como a idade, peso, sexo e raça. Sem esta informação podemos estar a compara-lo com os valores de uma pessoa com 2 metros e 100 kilogramas e o leitor mede 1,59 cm e tem 49 kilogramas.
  2. História clínica. O técnico irá perguntar-lhe se fuma ou não, a sua profissão ou se existe algum contato profissional de risco, outras doenças que tenha (como uma pneumonia ou tuberculose), a medicação habitual e os sintomas, entre outras perguntas. Este passo é importante para excluir contraindicações ao exame, como uma infeção respiratória ativa ou um enfarte do miocárdio recente.
  3. Depois, irá ficar sentado, com as costas direitas e será colocada uma pinça de borracha no nariz, para que respire apenas pela boca. Quando lhe disserem, deve respirar normalmente para um bucal (pequeno tubo de plástico) – ele é substituído para cada doente e por isso não se preocupe: não há perigo de transmissão de infeções.
  4. Depois irá ser pedido que encha o peito de ar o máximo que conseguir e soprar com toda a força possível, até deitar todo o ar fora. Depois, terá que encher novamente o peito de ar. A expiração deve durar pelo menos 6 segundos. Siga as instruções do técnico – ele está lá para o ajudar. Lembramos que apenas se estas manobras forem realizadas corretamente é que fornecem dados válidos para serem interpretados pelo médico. Aqui, um segundo a mais ou a menos faz toda a diferença.
  5. Já acabou…. para sermos honestos consigo, ainda não terminou. Vai ter que repetir pelo menos 3 vezes este processo. Isto tem uma razão de ser: temos que ter a certeza que os valores são reprodutíveis, ou seja, que em cada medição o fluxo é mais ou menos semelhante. Só assim o exame pode ser validado.

Depois de analisar os resultados da espirometria, se houver indicação médica ou de acordo com o protocolo, é realizada uma Prova de Broncodilatação. A prova de broncodilatação consiste na administração de um fármaco, o Salbutamol (através de um inalador pressurizado), para saber se a obstrução melhora, ou não, com o medicamento, cujo efeito conhecido é o de dilatar os brônquios. A pessoa espera cerca de 15-20 minutos para a substância poder atuar e depois repete-se a espirometria para avaliar como responderam os brônquios ao broncodilatador.

Preciso de fazer alguma preparação?

Uma das perguntas mais frequentes nas pessoas a quem pedimos para realizar uma espirometria pela primeira vez é se é necessária alguma preparação especifica para o exame. Ora, não se preocupe, fazer uma espirometria não é o mesmo que ir para o espaço, é fácil! De um modo geral, e apenas para que os valores sejam os mais verídicos possíveis, solicita-se normalmente a suspensão de alguma medicação, principalmente a que esteja relacionada com a patologia respiratória, nas horas que antecedem o exame, para não influenciarem os resultados:

  • Evite beber café, chá ou chocolate nas horas anteriores ao exame.
  • Se ainda fuma, evite o cigarro no dia do exame.
  • Não fazer exercício intenso até 2 horas antes do exame.
  • Não venha em jejum – tome o pequeno-almoço, mas sem exagero. 

Existem contra-indicações?

Ainda que seja muito raro, por vezes uma pessoa não tem condições para poder realizar este exame, apesar de ser um teste não invasivo e simples. Mas a verdade é que em certas situações não se aconselha a realização deste teste, sejam elas de origem respiratória ou não. Não deve fazer o exame caso se encontre constipado ou com gripe. No caso de uma infeção respiratória, tal como uma pneumonia, só poderá fazer o exame pelo menos uma semana após terminar o antibiótico. Assim, estamos a diminuir ao máximo a influência que este estado inflamatório/infecioso pudesse provocar na avaliação pulmonar destes doentes.

Existem outras situações que podem impedir a realização do exame, nomeadamente, uma história de enfarte do miocárdio recente, pessoa em pós-operatório, entre outras. Não nos devemos esquecer de que pessoas que tenham dificuldade de compreensão, deficiência mental ou que estejam bastante agitadas ou irritáveis poderão não conseguir realizar este exame, porque não vão conseguir colaborar com as indicações dadas pelo técnico.