Posso ser anestesiado?

É perfeitamente compreensível que tenha receio, ansiedade ou dúvidas sobre se é possível ser anestesiado para poder realizar aquela cirurgia que tanto necessita e até pode salvar a sua vida. Por outro lado, pode querer fazer uma intervenção com objetivos estéticos, para se sentir melhor, mas tem medo de que o risco de problemas ou de morte seja tão elevado que ultrapasse claramente os benefícios que poderia usufruir. Se é o seu caso, não se preocupe, não está sozinho nisto, não faz ideia do número de pessoas que enviam mensagens para o nosso site assustadas sobre os riscos da anestesia nelas próprias ou nos seus familiares.

Antes de mais, é importante que saiba que a DPOC é um fator de risco importante para a ocorrência de complicações durante a cirurgia e no período após a operação, tais como a pneumonia, a agudização da própria DPOC ou necessidade de ajuda ventilatória para respirar melhor. Mas isso não quer dizer que não vai poder ser operado e para ajuda-lo a perceber isto melhor contamos com a ajuda da Dra. Céline Ferreira, que trabalha no Serviço de Anestesiologia do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, e por isso está mais do que habilitada para nos explicar melhor este problema e responder às dúvidas mais frequentes.

É perfeitamente compreensível que o doente com Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica (DPOC) tenha receio, ansiedade ou dúvidas sobre a anestesia.

A DPOC é uma patologia pulmonar cada vez mais valorizada na Anestesiologia. Os doentes com DPOC podem ser anestesiados, porém é preciso reforçar que a ocorrência de complicações é maior. Sabemos que esta doença é um fator de risco importante para a ocorrência de complicações pulmonares no pós-operatório, tais como: pneumonia, bronquite, broncospasmo, insuficiência respiratória, atelectasias e ventilação mecânica prolongada. Por isso, é importante que os doentes sejam cuidadosamente avaliados no pré-operatório, para estimar o risco de complicações no pós-operatório.

O grau de gravidade do estado clínico do doente, o tipo de cirurgia e o tipo de anestesia são responsáveis, não só, pela ocorrência dessas complicações, mas também, pelo aumento de tempo de internamento no hospital.

O Anestesiologista é quem irá decidir qual o melhor tipo de anestesia. Durante toda a cirurgia, o Anestesiologista permanece junto do doente, monitorizando continuamente as suas funções vitais.

 

Anestesia

A anestesia NÃO é simplesmente “colocar” o doente a dormir para que possa ser operado. Por isso, é pertinente que tenh algumas noções básicas sobre “o que é a anestesia”. O termo Anestesia vem do grego antigo an-, “ausência”; e aisthēsis, “sensação”, ou seja, é uma condição física em que a sensibilidade e/ou a consciência estão temporariamente bloqueadas. Pode ser uma perda total ou parcial da sensibilidade do corpo.

Existem vários tipos de anestesias:

  1. Anestesia geral (a mais conhecida)
  2. Anestesia regional
  3. Anestesia local
  4. Sedação

 

Anestesia Geral

Durante a anestesia geral, o doente fica inconsciente, incapaz de se mover e, habitualmente, intubado e ligado a um ventilador.É uma técnica anestésica que consiste em 4 pilares básicos: hipnose, amnésia, analgesia e eventualmente relaxamento muscular.

Explicando de uma maneira mais simples:

Hipnose: refere-se ao adormecer e ao sono do doente.

Amnésia: refere-se à perda de memória durante toda a anestesia e cirurgia. É importante referir que o doente volta ao seu estado habitual, logo após a eliminação pelo organismo dos medicamentos que provocam essa perda de memória.

Analgesia: refere-se à medicação administrada ao doente para tolerar as dores.

Relaxamento muscular: refere-se à otimização das condições cirúrgicas e anestésicas (nem sempre é necessário).

 

Anestesia Regional

Este tipo de anestesia bloqueia a dor em apenas uma determinada região, como um braço, uma perna ou em toda a região inferior do corpo, abaixo do abdómen. Isto significa que o doente pode permanecer acordado.

Este tipo de anestesia é possível, com colocação de uma agulha fina de modo a permitir a administração de medicação perto do(s) nervo(s) a ser(em) bloqueado(s). Este tipo de anestesia é cada vez mais realizado.

O doente volta a ter sensibilidade e mobilidade após a eliminação pelo organismo dos medicamentos que provocam o bloqueio.

 

Anestesia local

Indicada em cirurgias pouco invasivas e/ou restritas à pele. Ao contrário das anestesias geral e regional, que devem ser administradas por um Anestesiologista, a anestesia local é usada por médicos de quase todas as especialidades.

 

Sedação

A sedação não é uma anestesia leve. Na verdade existem vários tipos de sedação:

  • Sedação ligeira: é aquela em que o doente está acordado, porém tranquilo.
  • Sedação moderada: o doente está a dormir, tem alguns reflexos deprimidos e pode estar a respirar normalmente.
  • Sedação profunda: o doente está a dormir, tem a maioria dos seus reflexos deprimidos e pode estar a respirar normalmente.

 

Fatores de risco para os doentes com DPOC

Existem alguns fatores que quando associados à DPOC aumentam o risco de consequências negativas e de mortalidade no pós-operatório. É a interação entre o estado clínico do doente, o tipo de anestesia e o tipo de cirurgia.

É importante que tenha consciência de quais são os fatores de risco, de modo a tentar otimizá-los:

 

  1. Estado clínico do doente:

Existem fatores de risco inerentes ao doente. São de destacar:

  • Tabagismo ativo ou ex-fumador com > 20 UMA
  • Idade > 70 anos
  • Outras patologias associadas: apneia do sono, insuficiência cardíaca congestiva, insuficiência renal
  • Estado nutricional desfavorável (obesidade (IMC > 30kg/m2) ou desnutrição)
  • Intolerância ao exercício físico

É importante realçar que a cessação tabágica por um período de pelo menos 8 semanas antes da cirurgia reduz as complicações pulmonares pós-operatórias (já descritas) e a necessidade de internamento nas Unidades de Cuidados Intensivos.

 

  1. Tipo de anestesia

A anestesia geral aumenta o risco de ocorrências de complicações pulmonares uma vez que compromete a fisiologia respiratória.As alterações da fisiologia respiratória  têm como consequências o aumento do trabalho respiratório, a hipoxemia (diminuição do oxigénio no sangue) e a retenção das secreções e consequentemente aumenta o risco de insuficiência respiratória.

Estas alterações podem provocar, ou não, repercussões no estado clínico do doente. O risco aumenta nos doentes com patologia pulmonar.

ATENÇÃO: um doente com doença pulmonar que seja operado, não significa que terá complicações pulmonares no pós-operatório, apesar de ter maior risco de complicações pulmonares, em comparação com um doente sem patologia pulmonar. Esse risco aumenta quanto mais grave for a patologia pulmonar.

Por isso é fundamental avaliar cuidadosamente os doentes no pré-operatório, aplicar medidas que possam otimizar a situação clínica do doente de modo a diminuir o risco de ocorrência de complicações no pós-operatório. Só depois do Anestesiologista avaliar o estado clínico do doente é que decidirá o tipo de anestesia mais adequado.

  1. Tipo de cirurgia

Características ligadas à cirurgia podem aumentar o risco de ocorrência de complicações pulmonares no pós-operatório. Isto é, cirurgias torácicas ou cirurgias abdominais superiores, incisões fora da linha mediana, incisões próximas do diafragma, cirurgias de emergências e perdas hemorrágicas elevadas, aumentam o risco de complicações pulmonares.

 

Avaliação Pré-Anestésica

 

A avaliação pré-anestésica é uma avaliação realizada pelo Anestesiologista antes da cirurgia, sendo constituída essencialmente por uma história clínica e um exame físico. É fundamental para a avaliação do estado clínico do doente e decidir qual o melhor tipo de anestesia.

Considera-se que a história clinica e o exame físico no período pré-operatório são indispensáveis e conseguem fornecer, na grande maioria das vezes, uma avaliação da condição clínica qualitativa e atual da função pulmonar dos doentes. Também se consegue identificar a grande maioria dos fatores de risco que levam a complicações pulmonares.

Durante a história clínica, o Anestesiologista fará perguntas mais específicas sobre a DPOC do doente, tais como:

  • Frequência de exacerbações da DPOC
  • Internamentos anteriores
  • Uso de antibióticos ou de corticoides
  • Necessidade de ventilação não-invasiva ou de ventilação invasiva anterior.

O Anestesiologista também fará perguntas mais gerais sobre o estado de saúde do doente, tais como:

  • Antecedentes pessoais
  • Medicação habitual
  • Existência de alergias
  • Cirurgias e anestesias anteriores
  • Outros assuntos que o anestesiologista achar pertinente.

Depois de classificar a gravidade da doença incluindo da sua interferência no dia-a-dia do doente, poderá haver necessidade da realização de mais exames, como espirometria e/ou gasometria, para além dos exames habituais (eletrocardiograma, radiografia do tórax e análises).

 

Otimização do estado clinico do doente no pré operatório

Existem várias medidas podem ser implementadas para diminuir o risco de complicações pulmonares e não pulmonares.

 

Cessão tabágica, atividade física e perda ponderal

É essencial otimizar todas as patologias associadas do doente. A cessação tabágica, a cinesioterapia, a atividade física e a perda de peso são essenciais para diminuir a morbilidade e mortalidade peri-operatória.

 

Medicação habitual

A medicação habitual da DPOC deve ser mantida até o dia da cirurgia (incluindo os inaladores), a não ser que lhe seja dito o contrário pelo seu anestesiologista.

É de realçar que se o doente faz BiPAP ou CPAP é extremamente importante que o doente leve todo o seu equipamento para o hospital. É muito importante a manutenção do BiPAP ou CPAP no pós-operatório para diminuir o risco de complicações.

PONTOS-CHAVE

  • A DPOC é uma patologia pulmonar cada vez mais valorizada na Anestesiologia.
  • O Anestesiologista é quem irá decidir qual é o melhor tipo de anestesia. Durante toda a cirurgia, o Anestesiologista permanece junto do doente, monitorizando continuamente as suas funções vitais.
  • Os doentes com DPOC podem ser anestesiados. É importante realçar que o doente com DPOC tem maior risco de complicações no pós-operatório. Não significa que o doente terá complicações no pós-operatório, significa que o risco é maior quanto mais grave é a patologia pulmonar.
  • A cessação tabágica, a cinesioterapia, a atividade física, a perda de peso são essenciais para diminuir a morbilidade e mortalidade peri-operatória.
  • É extremamente importante que o doente que faz BiPAP ou CPAP leve o seu equipamento para o hospital. A manutenção do BiPAP ou CPAP no pós-operatório diminui o risco de complicações.

Em caso de dúvidas, o doente não deve hesitar, deverá esclarecê-las junto do seu Anestesiologista.