Prognóstico

Nesta altura já sabe que a DPOC é uma doença que ainda não tem cura, que o vai acompanhar para sempre, mas que na maioria dos casos pode ser controlada, conseguindo-se atrasar a sua evolução e  o doente consegue viver a sua vida, trabalhar, e até viajar, com maior ou menor dificuldade. Infelizmente para outras pessoas, a trajetória do percurso da doença desenha um declínio acentuado do seu estado geral, associado a um aumento progressivo das suas queixas e do número de exacerbações, o que só por si é um fator de risco para um agravamento ainda mais exuberante da função pulmonar do doente, resultando numa pior qualidade de vida e maior risco de complicações sérias provocadas pela doença.

É importante perceber o que o médico quer dizer quando fala em prognóstico e, na minha opinião, é desejável que a pessoa tenha uma perceção geral da gravidade da sua doença, do que pode acontecer e de quais são as esperanças ou perspectivas que pode ter para a sua vida num futuro a curto, médio e a longo prazo. Deve haver honestidade e frontalidade quando o médico lhe explicar o que se passa consigo, sem dar demasiadas esperanças de que vai ter uma vida sem qualquer problema, mas também deve evitar pintar um quadro demasiado negro, até porque raramente atinge patamares tão graves, principalmente se o diagnóstico não for demasiado tardio ou se a pessoa cumprir com as indicações que falei anteriormente.

Todas as doenças têm um prognóstico e este pode ser bom ou mau, que pode mudar ao longo do tempo em que a pessoa tem a doença. Quando lhe dizem que o prognóstico é bom isso quer dizer que é previsivel que consiga manter uma qualidade de vida boa ou satisfatória, não se esperando que exista um agravamento súbito da doença e que a chamada “esperança de vida” seja igual ou próxima do normal para a sua idade e restante situação clinica. Por outro lado, uma pessoa com prognóstico mais reservado (porque não é simpático dizer a uma pessoa que tem um prognóstico mau, não é?) provavelmente sentirá um maior impacto na sua vida e é previsível que a situação possa piorar a curto-médio prazo e existe maior possibilidade de que a DPOC seja a razão para o final da vida.

Em Medicina o prognóstico constitui um juízo prévio e antecipado, uma espécie de previsão, mas fundamentada, uma vez que é elaborado a partir da análise da situação clínica do doente por parte do médico e com apoio dos exames complementares de diagnóstico, acerca da duração, da evolução e do eventual desfecho (falecimento do doente) provocado diretamente pela doença. Explicando isto por palavras mais simples, tratam-se de alguns dados que permitem prever como a doença e a pessoa que tem a doença vão evoluir e quais as hipóteses de cura ou de uma evolução menos positiva. Normalmente são baseados em grandes estudos que avaliaram dados de milhares de doentes, e apesar de não serem uma verdade absoluta, está provado que refletem e avaliam a grande maioria dos casos com rigor e fiabilidade. Estas informações permitem tomar decisões importantes sobre o beneficio e as indicações de cada tratamento e determinar o melhor caminho para que consiga alcançar a melhor qualidade de vida possível.

Na DPOC existem vários fatores de mau prognóstico conhecidos. Entre eles encontra-se o agravamento continuo e/ou drástico da função pulmonar, um valor inicial de FEV1 muito reduzido, apresentar vários episódios de agudizações no último ano, principalmente se tiver havido necessidade de internamento hospitalar ou necessidade de recurso a ventilação mecânica invasiva (Unidade de Cuidados Intensivos) por uma insuficiência respiratória muito grave ou a presença de várias comorbilidades como o cancro do pulmão, doença cardiovascular acentuada, entre outras. Outros parâmetros, como o resultado do exame da Prova da Marcha também são utilizados para determinar o prognóstico da doença.

A DPOC é uma das principais causas de mortalidade a nível mundial e estima-se que atualmente seja a terceira maior causa de morte direta, fruto do crescimento do seu maior conhecimento e diagnóstico, mas também refletindo a sua potencial gravidade. Segundo a classificação GOLD, os doentes na classe D e com pior função pulmonar são os que têm a maior taxa de mortalidade devido ao compromisso respiratório provocado pela DPOC, mas também pelas suas comorbilidades, que quando ficam descompensadas podem provocar estragos tão ou mais perigosos. Sabe-se também que a causa mais frequente de morte em doentes com DPOC ligeira é o Cancro do Pulmão, nomeadamente o do tipo epidermóide, que é o subtipo classicamente mais associado ao tabagismo.

Na minha opinião não vale a pena esconder a realidade as doentes e à sua família, mas deve-se evitar alarmar desnecessariamente, pois pode acrescentar mais ansiedade ou depressão a uma pessoa já fragilizada. Não é fácil dar más noticias a ninguém, muito menos quando se trata de algo relacionado com a saúde, e por mais treino ou experiência que uma pessoa tenha, nunca fica fácil. No entanto, é essencial para que se estabeleça e mantenha forte a relação médico-doente que falei anteriormente.

Ao conhecerem a verdadeira realidade da sua doença, sem mentiras ou falácias, o doente ou os seus familiares podem ganhar um motivo para se dedicar à prevenção ou ao cumprimento sem falhas do tratamento da DPOC pois passam a reconhecer melhor o perigo e as consequências desta doença.