Reabilitação Respiratória

No DPOC.PT a Reabilitação Respiratória (RR) é várias vezes abordada e referida como sendo algo bastante importante no tratamento do doente com DPOC. Vamos procurar neste texto explicar mais em pormenor em que consiste, respondendo a questões que certamente já colocou a si próprio(a) e ajudarão a que possa ficar mais esclarecido(a) sobre os seus benefícios. Para nos ajudar a perceber melhor a parte mais prática da RR e os seus benefícios contamos com a colaboração do responsável pelo Clinical Development Manager e relações externas do AIR Care Centre, e também fisioterapeuta, Paulo Abreu.

Reabilitar alguém significa “re-habilitar ou voltar a habilitar” essa pessoa a desempenhar funções ou tarefas para as quais perdeu capacidade ou habilidade.

Uma doença crónica como a DPOC, à medida que vai evoluindo afeta não só os pulmões, que por sua vez de forma direta ou indireta, provocam frequentemente sensação de dispneia (desconforto a respirar) e cansaço, alterações nos músculos (fraqueza, fadiga), alterações cardiovasculares (hipertensão, insuficiência cardíaca), alterações metabólicas (osteoporose, diabetes), alterações nutricionais (excesso de peso ou magreza), alterações psicológicas (ansiedade, depressão, medos, pânico) e restrições sociais (isolamento, limitação na participação para as tarefas básicas do dia-a-dia, no trabalho e no lazer).

 

O que é a Reabilitação Respiratória?

A DPOC pode assim ter um impacto a vários níveis, que são específicos de cada pessoa em função do estadio, gravidade e resposta individual à doença, pelo que a Reabilitação Respiratória deve ser uma intervenção abrangente, multi-interdisciplinar, individualizada, baseada numa avaliação minuciosa, tendo como principais componentes o treino de exercício e a educação do doente e família visando a mudança de comportamentos, com vista a melhorar a condição física e psicossocial dos doentes com doença respiratória crónica e promover a adesão a longo prazo de comportamentos promotores de saúde.

Outras intervenções como a fisioterapia respiratória, a psicoterapia, o aconselhamento nutricional, a terapia ocupacional e apoio social, podem também fazer parte do programa de RR.

 

Quais os benefícios da Reabilitação Respiratória?

A RR é uma intervenção que tem sido muito investigada nos últimos anos, sobretudo por médicos e fisioterapeutas, e já não existem quaisquer dúvidas sobre os seus enormes benefícios, apesar de que há doentes que melhoram mais do que outros, algo que parece estar relacionado muito com o tipo de intervenção que é feita, a sua duração e a adesão do doente, sobretudo no que diz respeito à mudança de comportamentos, como respeitar um plano de ação para prevenir e gerir as exacerbação, fazer atividade física de forma regular, evitar fatores de risco e prevenir as infeções fortalecendo o sistema imunitário (vacinação, boa alimentação, evitar o stress e dormir bem).

Os benefícios da Reabilitação Respiratória, comprovados cientificamente, são a melhoria da qualidade de vida relacionada com a saúde, o aumento da tolerância ao esforço, a melhoria da capacidade para realizar as tarefas do dia-a-dia, a redução dos sintomas (dispneia, cansaço, tosse, expetoração), a redução das exacerbações e/ou da sua gravidade, redução do número de consultas não programadas, hospitalizações e dias de internamento, o aumento da esperança de vida e uma maior eficácia na gestão da doença pelo doente e familiares/cuidadores.

A reabilitação respiratória é benéfica para todos os doentes com DPOC da classificação GOLD B, C e D. Todos os doentes com DPOC beneficiam da realização de atividade física de forma regular. Não existe assim um programa de Reabilitação Respiratória (PRR) para todos os doentes, existem sim diferentes PRR que são ajustados às necessidades de cada doente.

 

Quais as componentes da Reabilitação Respiratória?

Naturalmente que a primeira componente não podia deixar de ser uma avaliação minuciosa da condição clínica do doente (física, psicológica, nutricional, social), pois só assim é possível identificar os problemas que podem ser melhorados pela reabilitação e estabelecer um programa ajustado às necessidades individuais de cada doente. A identificação das possíveis contraindicações para a RR é também um dos objetivos principais da avaliação (ex. cardiopatia isquémica/ angina instável, insuficiência cardíaca congestiva descompensada, arritmia não controlada, cardiomiopatia hipertrófica, diabetes mellitus não controlada, entre outras).

Esta avaliação, conforme os casos, pode envolver a participação de um médico (pneumologista e/ou fisiatra), fisioterapeuta, enfermeiro, psicólogo, nutricionista, cardiopneumologista, terapeuta ocupacional, assistente social e por vezes de médicos de outras especialidades é também importante. A equipa mínima de profissionais é considerada o médico e o fisioterapeuta.

A avaliação deve envolver um bom conhecimento da história médica do doente, da sua função respiratória e cardíaca, dos seus sintomas e de como influenciam as suas atividades no dia-a-dia, da sua capacidade cardiorrespiratória em esforço, da sua força muscular, do seu equilíbrio, do seu nível de atividade física, de como faz os inaladores, do seu conhecimento sobre a doença, dos seus comportamentos face à doença, o contexto familiar e social.

 Vários questionários e testes são usados para avaliar a condição inicial e depois também para medir os resultados do programa de reabilitação respiratória (PRR) quando acaba e ao longo do tempo (ex. prova de marcha dos 6 minutos, o teste de sentar e levantar, o CAT, entre outros). Reavaliações durante e logo após o PRR e periodicamente depois deste terminar (ex. 6 meses, 1 ano) são importantes para não deixar que haja declínio nos ganhos obtidos com o PRR. Alguns doentes precisam de repetir o PRR 2 vezes por ano ou anualmente, para manterem bons níveis de capacidade ao esforço e eficácia na autogestão da doença.

O treino de exercício é uma fundamental no PRR. Na sua ausência os ganhos obtidos na capacidade funcional, na redução dos sintomas e na qualidade de vida são pouco significativos. O treino de exercício tem dois tipos que devem sempre existir: treino aeróbio ou de resistência e treino de força. Estas modalidades devem ser complementadas com treino de flexibilidade e quando necessário treino de equilíbrio (ex. risco de queda). A prescrição e a supervisão do treino devem ser feitas por profissionais habilitados na área do treino de exercício (médicos e fisioterapeutas), pois existem riscos e só alcançamos beneficio se o modo, a intensidade, duração e frequência forem ajustados ao doente. Em algumas pessoas é necessário que o treino seja realizado com fornecimento de oxigénio suplementar (obrigatório se já necessitar em repouso), para a manter a saturação de oxigénio no sangue sempre superior a 90% (avaliada com um oxímetro).

A educação do doente e familiares/cuidadores é outra componente muito importante do PRR, pois permite que o doente e família ganhem maior capacitação (empowerment) para gerir mais eficazmente o impacto da sua doença crónica, aumentem a adesão à terapêutica e adotem comportamentos promotores de saúde e bem-estar. A educação consiste na informação e formação dos doentes e cuidadores em temas como: (1) a DPOC (2) medicação, oxigenoterapia e ventiloterapia (3) gestão dos sintomas respiratórios (4) estilos de vida saudável (5) gestão do stress e ansiedade (6) plano de ação para o controlo das exacerbações. Vários profissionais estão normalmente envolvidos nas diferentes sessões educativas, como o médico, enfermeiro, fisioterapeuta, nutricionista, psicólogo, terapeuta ocupacional, entre outros.

Além da educação e treino de exercício, outras componentes podem ser adicionadas ao PRR em caso de necessidade, como a fisioterapia respiratória, terapia ocupacionala intervenção psicológica, nutricional e social.

A fisioterapia respiratória envolve a avaliação e intervenção relacionada com a aplicação e ensino de técnicas de remoção de secreções ou higiene brônquica (instrumentais e não instrumentais), os exercícios de controlo respiratório (ex. expiração com os lábios semicerrados, a respiração costo-diafragmática, o posicionamento para reduzir a dispneia), os exercícios de expansão pulmonar, o treino dos músculos respiratórios, o treino de técnicas de conservação de energia e o relaxamento.

Onde fazer Reabilitação Respiratória?

A Reabilitação Respiratória pode ser realizada em vários locais como o hospital (durante o internamento por agudização, em ambulatório), em centros especializados na área respiratória, nos centros de saúde, em locais na comunidade (clinicas, centros comunitários, ginásios) e no domicilio (acompanhado por fisioterapeuta presencialmente ou à distância – telerreabilitação).

Os doentes graves (com ou sem comorbilidades complexas) devem ser tratados em meio hospitalar ou em centros especializados na reabilitação respiratória. Os doentes de gravidade ligeira a moderada e sem comorbilidades complexas devem realizar o PRR em contexto comunitário e domiciliário.

A reabilitação no domicilio (acompanhado por fisioterapeuta presencialmente, telerreabilitação ou um sistema misto) deve ser reservada para os doentes que têm dificuldade de acesso a locais onde existam programas de RR, seja porque o custo envolvido na deslocação é elevado, seja porque esses locais não existem, seja porque o doente não tem condições físicas para o fazer, seja ainda porque não tem familiares ou cuidadores que apoiem essa deslocação.

A telerreabilitação pode ser uma boa forma de manter os resultados de um PRR realizado no hospital ou centro especializado, num doente que é pouco aderente à atividade física regular, e que irá perder certamente em pouco tempo os benefícios obtidos no PRR.

Independentemente de onde é realizada a RR (obrigatoriamente com a componente de treino de exercício bem orientada), da gravidade da doença e comorbilidades associadas e da idade do doente, a Reabilitação Respiratória tem benefícios significativos na melhoria da qualidade de vida e bem-estar físico e psicossocial do doente com DPOC.