Tratamento em casa

Nem todos os doentes com uma agudização da sua DPOC necessitam de internamento hospitalar, apesar de isto poder ser confuso para alguns doentes ou para os seus familiares, visto que acreditam que só ficando uns dias no hospital é que as pessoas são bem tratadas. A realidade é que uma grande parte dos doentes com exacerbações que recorrem aos Serviço de Urgência hospitalares ou dos Centros de Saúde têm alta para a sua casa e os dados a que temos acesso revelam que o tratamento fora do ambiente hospitalar é a melhor opção para a maioria das pessoas. Existe alguma coisa melhor do que estar no conforto do lar, idealmente com o carinho das pessoas que gostam de si e com a comida caseira?

Nestes casos pode ser agendada uma nova consulta a curto prazo para uma reavaliação mais próxima, o que permite evitar internamentos desnecessários e readmissões urgentes por novas exacerbações, uma vez que existe um seguimento mais atento destas pessoas. Uma boa interpretação e decisão sobre a necessidade ou não de um doente ficar internado pode evitar muitas infeções hospitalares e proteger a saúde dessa pessoa. Já tinha pensado nesta perspetiva?

Em seguida, fazemos um pequeno resumo acerca das opções para os doentes que têm alta para as suas casas.

 

Educação do doente

Nem todo o tratamento crónico desta doença tem que envolver obrigatoriamente o uso de medicamentos, como temos falado no DPOC.PT, e o mesmo se sucede quando sofre uma agudização da DPOC. Se quiser evitar um novo agravamento da doença deve tomar alguns cuidados no seu dia-a-dia: evite ao máximo estar ao ar livre desprotegido em situações de temperaturas extremas, evite a exposição a poluição e a fumos, como o tabaco, cheiros intensos, etc. Assim, elimina alguns dos principais fatores facilitadores de uma exacerbação, protegendo-se e mantendo-se em segurança. É o que se chama de Medicina Preventiva e você pode ser o seu próprio “medicamento”.

O seu médico deve certificar-se que faz uma boa técnica inalatória com o inalador prescrito, antes de lhe dar alta da consulta ou do serviço de urgência, pedindo-lhe para exemplificar, pois esta é uma das principais razões para a má adesão terapêutica, o que fomenta uma nova exacerbação. Pode parecer-lhe que está numa aula de teatro, mas é importante que perceba exatamente como utilizar o inalador.

Em doentes mais idosos ou com algumas dificuldades na realização da inalação pode ser útil um espaçador (uma câmara expansora), o que vai facilitar bastante a adesão ao tratamento, pois necessita de realizar um esforço inspiratório muito menor, aumentando a probabilidade de que o produto não fique retido na boca, onde não faz nada, e assim o fármaco atinge as vias aéreas inferiores.

 

A medicação

Uma exacerbação vai levar a uma alteração no esquema do tratamento que faz habitualmente, que vai ser ajustado de modo a alcançar-se um controlo mais eficaz da doença. Em muitos casos pode ser adicionado um corticóide inalado que permite atuar como anti-inflamatório brônquico, diminuindo a inflamação e tratando este episódio agudo. Se for episódio único, passados uns meses este corticóide pode ser retirado, no entanto, pessoas com muitas exacerbações por ano podem ter que manter este fármaco durante muito mais tempo.

Muitos doentes têm também indicação para corticoterapia oral por um período não superior a 5-10 dias, normalmente em esquema de desmame progressivo (decréscimo de dose gradual até à sua completa suspensão, de forma a evitar complicações graves). Muitos dos nossos doentes (ou devo dizer, as nossas doentes?) referem algum receio porque associam muito a toma deste medicamento a engordar ou “ficar inchada”. Realmente existe este risco, mas como se tratam de poucos dias isto raramente é um problema relevante.

Se existir alguma alteração no aspeto da expetoração habitual ou a presença de critérios clínicos e analíticos de uma infeção, pode ser necessário prescrever-lhe um antibiótico para combater esse processo infecioso. Relembramos e reforçamos que só deve tomar antibiótico por indicação médica e não porque o seu vizinho lhe disse que fazia bem. Normalmente sugere-se entregar na farmácia os comprimidos que restaram na caixa do antibiótico usado numa infeção anterior, de modo a evitar a tendência para se automedicar. O uso excessivo e indiscriminado de antibióticos torna as bactérias mais resistentes, diminuindo a resposta a esse medicamento quando necessitar realmente deles. A problemática da resistência antibiótica é real e afeta não apenas o indivíduo, mas toda a humanidade, uma vez que corremos o risco de estar a patrocinar o aparecimento de estirpes resistentes a todos os fármacos conhecidos atualmente.

Em certos casos pode também ser necessário realizar tratamento com oxigénio em casa. Nem todos vão necessitar de usar oxigénio para toda a vida, pelo que a reavaliação a curto prazo para uma decisão sobre a sua continuação ou suspensão deve ser agendada. A realização da colheita de sangue arterial, commumente designada de gasometria arterial, não é uma maldade por parte do seu médico, mas sim um exame muito importante que permite perceber qual o estado da sua capacidade em realizar as trocas gasosas a nível pulmonar, devendo ser utilizado criteriosamente, sempre após o seu consentimento, e com o maior cuidado.

Toda e qualquer alteração da medicação crónica, incluindo a que não tenha nada a ver com os pulmões, deve ser mencionada, por isso aconselhamos que traga consigo uma lista com o nome, dose, altura da toma e início ou suspensão, facilitando o trabalho de quem tem o dever de tratar de si. Guarde esta frase na sua cabeça: um doente informado é meio caminho para um doente tratado!

 

A consulta de reavaliação

Todos os doentes que tenham tido o diagnóstico de uma exacerbação de DPOC e que tenham alta da urgência ou do internamento devem ter uma consulta de reavaliação após algumas semanas, se possível com uma nova radiografia torácica e com realização de umas provas de função respiratória (espirometria/pletismografia) para atestar a resolução da situação e avaliar alguma consequência quer a nível estrutural quer a nível funcional pulmonar. Após um episódio deste tipo a situação global da DPOC pode alterar-se e por isso justifica-se que exista um novo check up respiratório. Infelizmente, nem sempre estão reunidas as condições humanas ou organizacionais para que isso aconteça, mas é o desejável e aconselhável.

Esta consulta é também uma boa oportunidade para rever e otimizar todo o tratamento de controlo, devendo reforçar-se os cuidados preventivos necessários que deve ter. O esforço mais importante para evitar uma nova exacerbação vai caber a si e não tenha dúvidas que os benefícios ultrapassam claramente os prejuízos de não o fazer.