Tratar no Hospital

Não conheço ninguém que goste de ficar internado num hospital, seja pela imposição de estar longe da família e dos seus amigos, seja pelo fato de poder pensar que isso quer dizer que provavelmente tem uma doença complicada ou perigosa, ou nem que seja pela comida. Sabe de alguém que goste da comida que é servida no hospital?

Por isto e muito mais, a decisão de internar uma pessoa com uma agudização da sua DPOC na enfermaria de um hospital decorre da interpretação da sua situação por parte do médico que o assiste na consulta ou na urgência, nomeadamente da gravidade da falta de ar, do grau de insuficiência respiratória, se existiu uma resposta insuficiente ao tratamento efetuado bem como da presença ou não de uma infeção grave ou de algumas comorbilidades descompensadas.

São muitos fatores a ter em conta pelo que tomar a decisão certa nem sempre é fácil. Não é uma questão de dizer simplesmente “sim ou não”, os médicos têm que perceber as limitações existentes no hospital, avaliar o risco que o internamento pode ter na sua saúde, decidir se a medicação endovenosa é fundamental para reverter o quadro ou ponderar as questões sociais e pesar o impacto de estar longe de sua casa e da família. No final, o importante é que o caminho escolhido seja o que proporcionar a melhor e mais rápida resolução desta situação, e tenho a certeza que todos os médicos têm o bem-estar do doente em primeiro lugar.

Para além da racionalização dos recursos do Sistema Nacional de Saúde, também é preciso considerar o estado socio-familiar do doente – pelas mais variadas razões, nem sempre existem condições em sua casa ou no ambiente familiar que garantam ao médico o suporte necessário para o cumprimento do tratamento adequado, bem como no limiar oposto, pode existir alguma reticência da sua parte em ficar tantos dias ausente de casa e não poder cuidar do cônjuge, filhos ou parentes mais idosos. Por vezes é necessário um nível de diplomacia semelhante aos das negociações de um pacto de paz entre dois países em guerra. Mas com calma, normalmente tudo corre bem e existe fumo branco.

Existem orientações que servem como referência na atuação médica e que apoiam a necessidade de hospitalização dos doentes com níveis muito baixos de oxigénio ou com grande retenção de dióxido de carbono, ou por outras palavras mais simples, a presença de insuficiência respiratória grave. Outros fatores que caracterizam um doente de alto risco incluem a existência de uma agudização nos 7 dias anteriores, o uso abusivo de inaladores de alívio (medicação em SOS), se já está a cumprir oxigenoterapia em casa ou se tem uma exacerbação apesar de tratamento recente com corticosteroide e/ou antibiótico (em que existe falência do tratamento anterior). Nestas situações é preferível que fique uns dias connosco internado no hospital, a fazer o tratamento certinho e, se tudo correr bem, ao fim de uns dias poderá ter alta para casa e da sua família.

Antes de terminar, é importante que perceba que tentamos evitar que fique internado porque o Hospital é um local onde estão outras pessoas com infeções, seja na urgência ou nas enfermarias, e apesar de todos os cuidados, não é possível eliminar a 100% a possibilidade de ocorrer a transmissão de uma infeção hospitalar, seja respiratória, urinária ou outra – felizmente isto ocorre raramente, mas tem que ser considerado. Por isso, não pense que quando o seu médico diz que é melhor tratar-se em casa isso quer dizer que não está a valorizar a sua doença, mas sim deve entender isso como uma preocupação com o seu bem-estar.