Viver com a DPOC

“Doutor, a DPOC tem cura?” ou “Se eu for operado, fico curado”? ou mesmo “Se eu parar de fumar, isto passa? – Parece-lhe familiar?

Questionar se existe cura para esta doença é compreensivelmente uma das principais preocupações da pessoa quando recebe o diagnóstico de DPOC pela primeira vez. Infelizmente, e custa sempre dizer isto, não existe atualmente um tratamento que cure para sempre a DPOC. O nome da doença não deixa dúvidas – a partir do momento em que esta se desenvolve, ela estará consigo para o resto da vida. No decorrer da sua evolução algumas pessoas irão sentir maiores ou menores dificuldades na sua vida diária, tal como pode nascer uma sensação de impotência durante alguns períodos, o que pode complicar a sua vivência pessoal e profissional, no entanto, também é verdade que muitas conseguirão prosseguir quase como se não tivessem doença nenhuma, desde que cumpram com a medicação.

De qualquer modo esta novidade não deixa de ser um choque para uma pessoa que até então seria saudável ou pelo menos não sentiria muitas limitações, ou se as sentia não sabia que faziam parte de uma doença. Nos dias de hoje é difícil aceitar que não se consegue resolver ou curar algumas doenças, tal como o cancro ou a DPOC. Possuímos atualmente tecnologia bastante avançada e observamos extraordinários avanços científicos quase diariamente. No entanto, certos problemas fulcrais da Humanidade ainda aguardam a sua resolução e quando falamos em assuntos no âmbito da saúde a sensação de tristeza e raiva é consideravelmente maior.

Apesar de ser um órgão fabuloso e indispensável à vida humana, a verdade é que o pulmão não é perfeito e também tem as suas falhas. Por exemplo, ao contrário de muitos outros tecidos do corpo humano, as células pulmonares desde cedo deixam de conseguir regenerar-se quando sofrem uma lesão. Estima-se que isto ocorra pouco depois da idade em que uma pessoa já pode conduzir legalmente no nosso país, por volta dos 18 anos. Envelhecer não é fácil!

E o que isto quer dizer? Mesmo que nunca tenha fumado ou trabalhado em ambientes de risco, como numa gruta ou com poeiras, é natural que perca alguns alvéolos ao longos dos anos e estes nunca serão substituídos por outros novos e prontos a trabalhar. Se acha isto trágico, imagine se existirem perdas adicionais por maus hábitos ou situações profissionais. Ora aqui está uma boa razão para deixar de fumar ou então usar a máscara de proteção se trabalhar e estiver exposto a poeiras, pós ou fumos.

Como não conseguimos cura-lo da DPOC, é a função e dever dos médicos desenvolver esforços para impedir que qualquer fonte extra de destruição alveolar continue a acontecer. É por isso que por vezes somos tão chatos e repetitivos a pedir que tenha mais cuidado consigo e comece a privilegiar a prevenção da doença ou, caso ela já exista, das exacerbações. E sim, estou a referir-me a deixar de estar dependente de tabaco, a deixar de estar tão isolado e parado em casa, a dar umas caminhadas ou até a alimentar-se de uma forma mais equilibrada.

Também por isso, muitas vezes vai ouvir o seu médico falar em tratamento de controlo. O objetivo é controlar e limitar os sintomas que mais o incomodam e evitar novas agudizações. Vai ter a DPOC sempre consigo, o que faz com a sua vida não depende da doença, mas sim da forma como lida com ela.

 

Sem stress, vamos controlar 

Como não é possível eliminar definitivamente a doença, o nosso principal objetivo é controlar a DPOC, atrasar ao máximo a sua progressão e evitar os sintomas indesejáveis. Os médicos chamam a isto o “controlo da doença estável”, fora dos períodos de maior agudização. Se tivermos sucesso conseguiremos evitar que tenha as complicações e as limitações que daí possam advir.

Infelizmente, acertar à primeira no tratamento mais eficiente para si nem sempre é fácil. Muitas vezes só o conseguimos após vários meses porque nem todos os doentes respondem de igual forma a cada tratamento ou têm outras doenças que necessitam de um ajuste mais particular e específico para que estes medicamentos tenham realmente efeito. Muitas vezes, uma pessoa habitua-se melhor ao inalador x do que ao inalador y e esse ajuste demora algum tempo.

A minha prioridade quando deparo com um doente com DPOC passa por diminuir os seus sintomas e atrasar ao máximo a evolução da doença. O que eu quero é que o doente possa levar a sua vida em diante, sem grandes preocupações ou dificuldades, e que tenha a mesma longevidade que uma pessoa que não sofra desta doença. Não almejo ser repetitivo, mas para isto ser possível também é necessário que da sua parte exista a confiança e dedicação para cumprir as indicações dadas por quem está a tratar de si. Por mais fácil e efetivo que seja o plano delineado pelo médico, o seu sucesso depende da sua adesão completa ao mesmo. Usando novamente uma alegoria desportiva, os médicos são os treinadores, mas o doente é que calça a chuteira e marca o golo.

O seu médico poderá prescrever-lhe medicamentos, principalmente os administrados de modo inalatório, que têm o objetivo de melhorar ou controlar os seus sintomas, como a falta de ar ou a pieira. Para além disso, podem ainda ajudar a diminuir o número de exacerbações e abrandar o agravamento da função pulmonar. Mas não podemos esquecer outras medidas fundamentais, como deixar de fumar (é essencial!), adotar uma alimentação mais equilibrada ou começar a fazer algum exercício físico.

Algumas mudanças na forma como vive o seu dia-a-dia podem ter um resultado muito positivo ou são mesmo fundamentais no controlo da evolução da sua doença, e sem dúvida que eliminar os maus hábitos pode fazer toda a diferença. Estas alterações podem ser suficientes para melhorar a sua capacidade física e para diminuir o risco de agudização da DPOC. Para além de melhorarem a parte respiratória, influenciam também outras áreas da saúde e do bem-estar, pelo que vai ficar mais feliz e relaxado, aproveitando melhor a vida.

O seu principal objetivo é reduzir os sintomas que a DPOC lhe provoca de forma a que consiga continuar a ir ao café, ao supermercado, fazer uma caminhada, ou mesmo fazer as suas atividades domésticas sem dificuldade ou sofrimento.